Na Índia, ao longo de dois anos, a cada final de semana, uma menina de 12 anos denunciou que foi estuprada por homens que visitavam a sua casa. Os crimes foram revelados pela vítima a assistentes sociais. Alguns agressores eram conhecidos do pai.
A vítima conta que tudo começou quando o pai passou a convidar amigos para beber em casa. Bêbados, os homens a provocavam e a apalpavam na frente da família. Às vezes eles desapareciam com a mãe rumo ao único quarto da casa.
Um dia, relatou a garota, ela mesma foi trancada pelo pai no mesmo quarto com cheiro de mofo, junto com um de seus amigos. O homem a estuprou.
A infância tornou-se rapidamente um pesadelo. Os homens visitavam sua casa, agendando tempo com ela por meio do seu pai, e dando dinheiro a ele em troca. Assistentes sociais acreditam que a menina tenha sido estuprada por ao menos 30 homens desde então.
Em uma ocasião, ela contou, sua menstruação não apareceu por três meses. Seus pais a levaram ao médico, que pediu um ultrassom e, então, a fez tomar alguns remédios.
Quatro homens, incluindo o pai da garota, foram presos. Eles são acusados de estupro, utilização de crianças para fins pornográficos e abuso sexual, sem direito a fiança.
A polícia ainda procura por outros cinco homens, todos conhecidos do pai, que também teriam abusado e estuprado da menina. Os investigadores tem uma lista de nomes e fotografias de aproximadamente 25 homens conhecidos da família, que têm sido mostrado à menina. “Eu não me lembro de nenhum rosto. É tudo um borrão”, disse ela.
Há dois meses, a garota divide o abrigo com outras meninas vítimas de abuso sexual.
Histórico de abusos
Casos de abuso sexual de crianças são recorrentes na Índia. A maioria deles é cometida por pessoas conhecidas pelas vítimas, como parentes, vizinhos e empregadores, de acordo com dados oficiais.
Em 2017, o ano mais recente nas estatísticas, foram 10.221 casos de estupro infantil. Crimes contra crianças vêm crescendo acentuadamente nos últimos anos.
Casos como o descrito pela garota não são incomuns. No lar temporário em que ela foi colocada, há três garotas, com idades entre 12 e 16 anos, que sofreram abuso dos próprios pais.
Uma assistente social contou a história de uma garota de 15 anos, engravidada pelo pai. “Quando conversamos com ela sobre dar a criança para adoção após o parto, ela disse: ‘Por que eu deveria desistir do meu filho? Esse filho é do meu pai e eu vou criá-lo'”, afirmou.
Nos primeiros dias no abrigo, a menina dormiu durante todo o tempo. Depois, passou a escrever mensagens sobre como amava sua Amma (mãe).
Sua mãe diz que a filha inventou toda a história para punir os pais após brigas sucessivas. Houve um tempo, disse, em que seu marido estava empregado e as condições na casa não eram tão ruins. Mas, agora, ela estava sozinha, com o marido na prisão aguardando julgamento e sua filha em um lar temporário.
“Eu sou uma boa mãe. Ela precisa de mim”, afirmou à BBC. Nas paredes de tinta descascada, os desenhos e escritos da menina servem como lembrança para a mãe. “Amigos. Se eu pudesse me abrir e compartilhar meus sentimentos mais profundos, seria uma vitória por si só”, ela escreveu em um papel colado em uma das portas.
Meses antes, mãe e filha tiveram uma briga. Quando a garota voltou da escola, usou um giz pastel azul para desenhar na porta da frente uma palmeira e uma casa com chaminé – o que muitas meninas da sua idade desenhariam usando a imaginação.
Depois, escreveu um pedido desculpas e saiu. “Desculpe, mamãe.”









