Seis anos depois do crime que chocou o país, a sentença chegou: Paulo Cupertino foi condenado a 98 anos e 9 meses de prisão pelo assassinato de Rafael Miguel, ator conhecido por seu papel em Chiquititas, e dos pais do jovem, João e Miriam.
O crime ocorreu em 2019, após Cupertino não aceitar o namoro da filha, Isabela Tibcherani, então com 18 anos. Agora, em 2025, Isabela rompe o silêncio e revela as feridas invisíveis que carrega desde aquele dia. “A justiça foi feita. Por mais que isso não vá mudar o que a gente sente, a dor que foi causada, a gente consegue olhar pra frente”, disse em vídeo publicado nas redes sociais.A fala é breve, mas densa. Carrega anos de silêncio, medo e julgamento público.
Filha do autor do crime, Isabela teve que lidar com um luto atravessado por cobranças e olhares desconfiados como se tivesse que se justificar por um crime do qual também foi vítima. Culpa herdada, dor não escolhida em vez de ser acolhida, Isabela foi rotulada. “A filha do assassino”. Esse estigma a acompanhou durante anos, e até hoje ela sente o peso dessa identidade imposta. “Quantas vezes eu revivi aquela cena? Quantos remédios eu tomo até hoje por ansiedade, por estresse pós-traumático?”, questiona.
O trauma emocional é profundo. Desde o crime, ela faz uso de medicamentos controlados e terapia contínua. Sua saúde mental se tornou frágil mas não sua força. “Meu pai matou o Rafael, mas matou também minha adolescência, meus vínculos, meu senso de segurança. Ele destruiu três vidas e arruinou a minha por tabela”, disse em outro trecho publicado no Instagram. “Ele matou por controle, não por amor”.
Durante o julgamento, Isabela relembrou os abusos emocionais que sofreu dentro de casa. Relatos apontam que Cupertino era controlador, autoritário e não aceitava que a filha tivesse vida própria. O namoro com Rafael foi o estopim de um ódio que culminou em tragédia. “Ele matou por ego, por obsessão. Nunca foi amor de pai. Era domínio”, declarou.
Vozes que apoiam, vozes que julgam após os vídeos publicados, Isabela recebeu uma onda de solidariedade nas redes sociais. Mulheres que passaram por traumas familiares se identificaram com seu desabafo. Algumas escreveram: “Você é uma sobrevivente, não herdeira da culpa”. Mas o apoio convive com os ataques. “Ainda tem gente que me vê como cúmplice, como se eu devesse carregar a cruz que ele construiu”, lamenta. Essa contradição entre empatia e julgamento é o retrato de um país que ainda falha em acolher vítimas colaterais de crimes de grande repercussão.
Reconstruir depois do fim hoje, Isabela tenta reconstruir a própria vida. Evita exposições públicas, mas tem se aproximado de causas ligadas à saúde mental e ao apoio a vítimas de violência doméstica. Também voltou a produzir arte sua forma de expressão e cura. “Meu silêncio foi imposto. Agora, minha voz é escolha. E meu recomeço é um ato de resistência. ”Uma sentença, muitas feridas a condenação de Paulo Cupertino encerra um capítulo judicial, mas não apaga o impacto emocional deixado para trás.
Para Isabela, a sentença representa um alívio, mas não um encerramento. “A justiça foi feita. Mas o que ele destruiu, ninguém devolve. Só eu posso reconstruir. E é o que estou tentando fazer dia após dia.”-






