Manaus | 4 de junho de 2026 | 21:01:23

Lula e o SUS: Hipocrisia escancarada – por que políticos fogem do serviço público?

Na política, há discursos que soam bem, mas na prática escancaram contradições gritantes. A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, defendendo que prefeitos deveriam obrigatoriamente usar o SUS e matricular seus filhos em escolas públicas, é um exemplo clássico desse paradoxo. A fala, feita às vésperas do Encontro Nacional de Prefeitos, pode até parecer um apelo populista à igualdade, mas levanta uma questão incômoda: e os próprios governantes federais, incluindo o próprio Lula, seguem essa lógica?

A resposta é óbvia: não.

Quem realmente confia no serviço público?

O presidente critica prefeitos que evitam os serviços públicos, mas ele e sua equipe governamental fazem o mesmo. Ministros, deputados, senadores e até secretários estaduais raramente, ou nunca, são vistos em hospitais públicos esperando por atendimento, enfrentando longas filas para exames ou internados em corredores superlotados.

Se a rede pública de saúde é tão eficiente quanto o governo quer fazer parecer, por que os altos cargos da República insistem em hospitais privados e tratamentos caríssimos no exterior? Se as escolas públicas oferecem ensino de qualidade, por que seus filhos estudam nas instituições mais caras do país?

A resposta para isso não está na retórica, mas na realidade vivida por milhões de brasileiros que não têm escolha. Enquanto a população se vê obrigada a enfrentar a precariedade dos serviços públicos, a elite política – responsável por sua administração – se mantém distante das consequências de sua própria gestão.

O problema está na falta de lei ou na falta de vergonha?

Defendo há tempos que políticos deveriam ser obrigados por lei a utilizar exclusivamente os serviços públicos. Parece radical? Talvez. Mas não seria essa a maneira mais eficaz de garantir melhorias reais?

Se um prefeito ou governador soubesse que ele, sua família e seus assessores dependeriam do SUS e das escolas públicas, teria coragem de manter a saúde e a educação no estado de abandono em que se encontram? Será que as emendas parlamentares seriam usadas para conchavos políticos ou, enfim, priorizariam o básico para a população?

O que temos hoje é um modelo em que políticos administram bilhões destinados à saúde, mas preferem pagar planos exclusivos para não enfrentarem a mesma realidade de quem os elegeu. Eles dizem que a rede pública precisa de mais investimento, mas não ousam testá-la em momentos de necessidade. Eles falam em educação de qualidade, mas matriculam seus filhos em colégios que cobram mensalidades superiores ao salário mínimo.

A contradição não poderia ser mais evidente.

A falsa moralidade do discurso presidencial

Ao sugerir que prefeitos devem confiar no SUS, Lula tenta posar de defensor do povo. Mas ele próprio não segue essa lógica. Seu histórico de atendimento médico inclui tratamentos no Hospital Sírio-Libanês, referência em excelência privada. Quando precisou de cuidados, não recorreu ao sistema público que tanto defende em discursos.

Se a proposta do presidente fosse genuína, começaria por ele próprio. O verdadeiro líder dá o exemplo. Mas o que vemos é o contrário: um governo que prega uma realidade para os outros, enquanto usufrui dos privilégios do poder.

Discurso fácil, compromisso difícil

A hipocrisia da classe política brasileira se revela exatamente nessas falas que parecem populistas, mas escondem a perpetuação da desigualdade. Lula sabe que obrigar prefeitos a usarem o SUS não resolverá os problemas estruturais da saúde pública. Mas sabe também que esse tipo de discurso gera aplausos e reforça sua narrativa.

Se o governo realmente quer melhorar o SUS, deveria começar garantindo investimentos contínuos, gestão eficiente e punições severas para o desvio de recursos. Mais do que isso, deveria dar o exemplo, abandonando os hospitais privados e se submetendo ao mesmo sistema que milhões de brasileiros enfrentam diariamente.

Pois, no fim das contas, não é sobre discurso. É sobre prática. E nisso, sabemos bem, há uma grande diferença.

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