O lipedema, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019 e incluído na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) em 2022, é uma condição caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura nos braços e pernas, com sintomas que vão além de questões estéticas. Apesar de sua descrição há mais de 80 anos, a doença ainda é amplamente desconhecida, tanto por pacientes quanto por profissionais de saúde, o que dificulta diagnósticos e tratamentos.
Diferentemente da obesidade, a gordura característica do lipedema não responde a dietas ou exercícios físicos. Marcada por fibrose, pelo aspecto de “casca de laranja” e por nódulos semelhantes a celulite, essa gordura é localizada principalmente em pernas e braços, enquanto a cintura e outras regiões do corpo permanecem com pouca ou nenhuma concentração de gordura. “Vemos mulheres com cintura fina, que se alimentam bem, praticam exercícios, mas continuam com deformidades nos membros”, explica o cirurgião plástico Fábio Kamamoto, fundador do Instituto Lipedema, em São Paulo.
Diagnóstico ainda enfrenta desafios
Apesar do reconhecimento internacional, no Brasil a adoção do CID-11 está prevista apenas para 2027, um atraso que reflete a falta de preparo para lidar com a doença. O diagnóstico ainda depende de profissionais com experiência no quadro, considerando sintomas como nódulos nas coxas, contornos dos joelhos apagados e o formato de “perna ampulheta”. Além disso, dores, sensação de peso nas pernas, hematomas frequentes e má circulação são indicativos comuns, embora possam ser confundidos com outras condições.
Vídeos nas redes sociais, como os produzidos pela cirurgiã vascular Thais Torres, têm ajudado a popularizar os sinais visuais do lipedema. No entanto, muitos profissionais ainda desconhecem ou até contestam a existência da doença, o que dificulta o acesso das pacientes a diagnósticos e tratamentos adequados.
Uma doença ‘nova’, mas com muitas dúvidas
A gordura do lipedema apresenta características únicas que a diferenciam de outros tipos de gordura corporal. Segundo o cirurgião vascular Mauro de Andrade, ainda faltam respostas sobre o mecanismo exato do acúmulo dessa gordura e suas vias metabólicas. “Sabemos que há fatores genéticos e uma resposta alterada ao estrogênio, o que agrava o quadro em fases de mudanças hormonais, como a puberdade e a gravidez”, comenta Andrade.
Fatores inflamatórios também desempenham um papel importante. Hábitos como consumo de açúcar, ultraprocessados, álcool e sedentarismo agravam a condição. Apesar disso, muitas pacientes relatam melhora com mudanças alimentares, como a exclusão de glúten e lactose, mesmo sem comprovação científica.
Impacto emocional e novas perspectivas
A falta de conhecimento sobre o lipedema não só dificulta o diagnóstico, mas também afeta a autoestima das mulheres. Estima-se que cerca de 10% da população feminina mundial sofra da condição — no Brasil, são cerca de 10 milhões de mulheres. Celebridades como Yasmin Brunet têm usado sua visibilidade para aumentar a conscientização sobre a doença, que é frequentemente estigmatizada.
Kamamoto relata que, há apenas 10 anos, desconhecia o lipedema até ser apresentado a uma paciente com os sintomas característicos. “Ela tinha cintura fina, pernas grossas, piora com anticoncepcional e dificuldade de perder peso na parte inferior do corpo. Hoje, vejo casos assim com frequência, mas, na época, era algo raro de ser discutido”, relembra.
O futuro do tratamento
Embora o reconhecimento pelo CID-11 tenha sido um marco importante, há muito a ser feito para melhorar o cuidado com pacientes de lipedema. Medicamentos eficazes ainda são inexistentes, e os tratamentos disponíveis, como fisioterapia e cirurgia, buscam apenas aliviar os sintomas. O avanço no entendimento das vias metabólicas e dos mecanismos da doença é fundamental para mudar esse cenário.
Enquanto isso, iniciativas como o Instituto Lipedema e organizações internacionais têm lutado para aumentar a conscientização e oferecer apoio às pacientes. Para muitas mulheres, a inclusão do lipedema na CID-11 representa não apenas um passo à frente na ciência, mas também um reconhecimento de que sua dor e luta são legítimas.





