Manaus | 27 de agosto de 2026 | 05:05:47

Eles não querem mamar

Quem nunca ouviu: “Ah, mas ele não trabalha porque recebe alguma “bolsa” do governo”. Essa frase é comum ouvir na fila da padaria, numa roda de conversa, ler comentários nas redes sociais, de pessoas difundindo a ideia de que programas como o Bolsa Família desestimulam o trabalho e perpetuam a pobreza. Mas, você sabia que isso é um grande mito? E as evidências estão em um estudo recente do Banco Mundial, que revela que os beneficiários desses programas no Brasil participam ativamente do mercado de trabalho.

E surpreenda-se. Ao contrário do que muitos acreditam, a pesquisa mostrou que os beneficiários do Bolsa Família trabalham tanto ou mais que os não beneficiários. Para se ter uma noção, em 2019, cerca de 70% dos adultos beneficiários do programa estavam na força de trabalho, com 57% empregados. No entanto, a maioria desses empregos é informal e de baixa remuneração, refletindo a precariedade do mercado de trabalho para os mais pobres.

Infelizmente, o mito de que quem recebe não trabalha repercute nas mulheres, não por opção delas, mas porque o mercado impõe barreiras invisíveis. Dos beneficiários que permaneciam fora da força de trabalho, 80% eram mulheres, muitas com filhos. Isso é reflexo da incapacidade do Estado de prover o mínimo para as brasileiras, pois a falta de creches e a baixa oferta de ensino em tempo integral fazem com que elas não possam deixar de acompanhar suas joias.  

Outra questão muito ouvida é a de que as famílias beneficiárias permanecem ad eternum “mamando às custas do trabalho das classes a, b”. Mais um mito, pois cerca de 23% das famílias saem do programa em menos de três anos, enquanto 40% permanecem por mais de sete anos. O que dá pra extrair desses números? É que o tempo de permanência nos programas sociais está intrinsicamente ligado à capacidade de inserção no mercado de trabalho formal.

Eu também já escutei: “Ah.. mas fulana saiu, não conseguiu ficar no emprego e voltou, como sempre volta toda vez que quer”. Como diria os amazonenses, outra conversa fiada, porque apenas cerca de 12% das famílias retornam ao programa após deixá-lo, e a maioria delas o faz uma única vez, colocando um ponto final na tese de que o Bolsa Família cria uma dependência cíclica para os beneficiários.

A verdade é que muitos relutam em admitir o importante papel que vem sendo cumprido pelo programa, que é de oferecer a mínima condição de sobrevivência para os brasileiros mais vulneráveis.

O Bolsa Família, em 2023, atendeu mais de 20 milhões de famílias brasileiras que, além de receber o auxílio são obrigadas a atenderem aspectos sociais importantes para o desenvolvimento das pessoas, e do país, como por exemplo: A gestante ser impelida a fazer o acompanhamento pré-natal; todos os componentes da família estarem em dia com o calendário nacional de vacinação; fazer com que as crianças e adolescentes das famílias tenham uma frequência mínima nas escolas.

Tudo isso prova que esses tipos de programas sociais são ferramentas importantes para mitigar a pobreza e proporcionar uma rede de segurança para os mais vulneráveis, e em nada tem a ver com o desestímulo ao trabalho. Se parar e observar, o verdadeiro desafio para o Brasil é criar condições que permitam aos mais pobres não apenas sobreviver, mas prosperar, garantindo que todos tenham acesso a oportunidades reais de desenvolvimento econômico e social.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Relacionados

Espaço Publicitário

Últimas postagens