Manaus | 20 de julho de 2026 | 20:41:35

Doxiciclina: A “pílula do dia seguinte” para prevenir ISTs vira tendência no Brasil

O uso da doxiciclina como estratégia de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) tem atraído cada vez mais atenção no Brasil. A prática, conhecida como DoxiPEP (profilaxia pós-exposição com doxiciclina), funciona de maneira semelhante à pílula do dia seguinte, sendo administrada após relações sexuais desprotegidas para reduzir o risco de ISTs bacterianas, como sífilis e clamídia. Apesar do crescente interesse, a prática ainda não é regulamentada no país, mas já é tema de estudos e discussões em âmbito global.

Segundo especialistas, a DoxiPEP consiste em tomar dois comprimidos do antibiótico entre 24 e 72 horas após exposição em relações sexuais oral, anal ou vaginal sem preservativo. Estudos recentes têm demonstrado resultados promissores. Uma pesquisa publicada na JAMA Internal Medicine, realizada em São Francisco, nos Estados Unidos, apontou que, após 13 meses de uso, os adeptos do protocolo tiveram 49% menos diagnósticos de clamídia e 51% menos de sífilis em relação às projeções para pessoas que não usaram o método.

No Brasil, a sífilis tem se tornado uma preocupação crescente. Dados do Ministério da Saúde revelam que os casos da doença aumentaram em média 11% ao ano desde 2021. Para Pâmela Cristina Gaspar, coordenadora-geral de Vigilância das Infecções Sexualmente Transmissíveis (Cgist), a DoxiPEP pode ser uma ferramenta importante para conter essa escalada, mas ainda há barreiras técnicas e regulatórias.

“Estamos realizando análises técnicas sobre as evidências científicas e o impacto orçamentário. Entretanto, como a doxiciclina faz parte de uma classe de antimicrobianos usada para tratar diversas infecções na rotina clínica, é essencial fortalecer o monitoramento da resistência antimicrobiana que pode surgir com esse uso”, explica Gaspar.

Além disso, o uso de antibióticos de forma preventiva levanta preocupações na comunidade médica. O principal desafio é evitar o surgimento de bactérias resistentes, um problema que já afeta tratamentos em diversas áreas da saúde. A avaliação para a adoção da DoxiPEP no Sistema Único de Saúde (SUS) segue em andamento, mas ainda não há previsão para implementação em larga escala.

Um tema em debate nos congressos médicos
Nos últimos anos, a DoxiPEP tem ganhado espaço em congressos e artigos médicos como uma solução para combater a onda de ISTs em nível global. No entanto, a utilização do antibiótico como ferramenta de prevenção ainda enfrenta desafios éticos e científicos, incluindo a necessidade de assegurar que seu uso seja acompanhado de estratégias educacionais para evitar a redução no uso de preservativos e conscientizar sobre outras infecções que não são prevenidas pela doxiciclina, como o HIV.

Enquanto isso, no Brasil, a prática já começa a ganhar adeptos entre médicos.

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