O discurso de ódio contra mulheres ganhou uma nova face no Brasil: ele não apenas perpetua a misoginia, mas também se tornou uma fonte lucrativa de renda para criadores de conteúdo no YouTube. Essa é a conclusão de uma pesquisa inédita realizada pelo Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais, uma iniciativa do NetLab-UFRJ em parceria com o Ministério das Mulheres. O relatório, intitulado “Aprenda a evitar ‘este tipo’ de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube”, analisou impressionantes 76.289 vídeos de 7.812 canais, que juntos acumulam mais de 4,1 bilhões de visualizações e 23 milhões de comentários.
O negócio da Misoginia
O relatório revela como os influenciadores utilizam uma combinação de linguagem preconceituosa, apelo emocional e estratégias de monetização para transformar o ódio às mulheres em uma ferramenta de engajamento. Termos como “mulheres problemáticas” ou “este tipo de mulher” aparecem frequentemente nos títulos dos vídeos, atraindo espectadores para conteúdos que promovem a desvalorização e o desprezo feminino. A estratégia é direta: instigar a indignação e reforçar estereótipos de gênero para criar uma base fiel de seguidores.
Segundo os pesquisadores, esses conteúdos não apenas reforçam narrativas misóginas, mas também perpetuam a ideia de controle sobre o comportamento feminino, impactando negativamente as relações de gênero na sociedade. Além disso, muitos desses vídeos são diretamente vinculados a programas de afiliados, cursos online e até doações diretas dos espectadores, transformando o ódio em lucro.
Números Alarmantes
Os números impressionam e preocupam. O levantamento dos vídeos revelou que:
- 7.812 canais produzem conteúdo abertamente misógino.
- Juntos, esses vídeos geraram 4,1 bilhões de visualizações, um número que demonstra o alcance massivo dessas mensagens.
- Foram analisados 23 milhões de comentários, muitos deles reforçando e amplificando os discursos de ódio.
O YouTube, como maior plataforma de vídeos do mundo, desempenha um papel central na disseminação desse tipo de conteúdo. Embora as diretrizes da plataforma condenem discursos de ódio, a pesquisa mostra que a moderação ainda falha em coibir a produção e circulação de vídeos que promovem a misoginia.
Para especialistas do NetLab-UFRJ, o impacto social desses conteúdos vai além do ambiente online. “Esses vídeos alimentam uma cultura de violência simbólica e estrutural contra as mulheres. Eles reforçam comportamentos que podem culminar em violência física, emocional e psicológica no mundo real”, explica um dos responsáveis pelo estudo.
O relatório também destaca a necessidade urgente de regulamentação mais rígida para impedir a monetização de conteúdos que violam direitos humanos. “Precisamos de uma ação coordenada entre governo, plataformas e sociedade civil para enfrentar esse problema”, afirma a diretora do Ministério das Mulheres, que participou da análise.
Enquanto influenciadores monetizam o ódio, organizações femininas e ativistas digitais estão lutando para trazer o problema à luz e cobrar mudanças efetivas. Campanhas educativas, denúncias e debates públicos são algumas das estratégias utilizadas para combater a disseminação da misoginia nas plataformas digitais.
No entanto, o desafio é grande. O relatório aponta que a desinformação e os discursos de ódio tendem a se espalhar mais rápido do que os esforços de conscientização, especialmente em um ambiente digital alimentado por algoritmos que priorizam engajamento a qualquer custo.
A pesquisa acende um alerta sobre o futuro das relações de gênero no espaço digital e expõe a urgência de transformar o ambiente virtual em um espaço mais inclusivo e respeitoso. Para que isso aconteça, é fundamental que tanto plataformas como o público reconheçam o impacto devastador da monetização de discursos de ódio e tomem medidas concretas para combatê-lo.
O relatório completo está disponível no site do Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero, e os dados são um chamado à ação para todos que acreditam na construção de uma sociedade mais igualitária. A misoginia não pode ser transformada em entretenimento — nem em lucro.







