Menstruar, para muitas meninas e mulheres da Amazônia, ainda é motivo de ausência na escola, constrangimento e risco à saúde. Em um cenário agravado pela seca extrema e o isolamento geográfico, um novo projeto-piloto do Programa Dignidade Menstrual, parte do Selo Unicef 2025-2028 que promete levar mais do que kits de higiene: leva cidadania.
A ação começa nos municípios de Lábrea e Humaitá, no sul do Amazonas, e é fruto de uma parceria entre o Unicef e o Governo do Estado. As comunidades indígenas e ribeirinhas da região receberão kits com absorventes, sabonetes, papel higiênico e toalhas, adaptados à realidade local. A meta é expandir o modelo para todo o estado.
Dados alarmantes: 99,6% sem acesso durante a estiagem
Um diagnóstico participativo feito entre abril e maio deste ano revelou um dado alarmante: 99,6% das mulheres entrevistadas disseram ter enfrentado dificuldades para conseguir itens menstruais durante a estiagem de 2024-2025. O estudo ouviu 245 mulheres em 11 comunidades dos dois municípios amazonenses e também em Guajará-Mirim (RO).
As barreiras vão além da logística: envolvem pobreza, desinformação e estigmas culturais, que ainda tratam a menstruação como tabu.
“Trata-se de cidadania”, diz coordenadora da UGPE
Coordenadora do projeto no Amazonas, Reny Moita, da UGPE, destacou que a proposta vai além da saúde pública. “Trata-se de cidadania”, afirmou. Segundo ela, o novo ciclo do Selo Unicef mobiliza secretarias estaduais, prefeituras e organizações para enfrentar problemas reais vividos por crianças e adolescentes do interior.
Na reunião técnica que apresentou os dados, o chefe nacional de Saneamento e Clima do Unicef, Gregory Bulit, alertou: “Uma em cada quatro meninas já perdeu aulas por causa da menstruação. Nosso foco é garantir o básico e o básico, infelizmente, ainda falta”.
Distribuição começa este mês
Em Lábrea, a entrega dos kits será realizada nas próximas semanas, com apoio da ONG Serviço Pastoral dos Migrantes, ligada à Igreja Católica. A operação também contará com apoio das secretarias estaduais de Saúde, Educação, Justiça, Assistência Social e de outros órgãos técnicos.
Os kits incluem:
- 7 pacotes de absorventes (com 8 unidades cada)
- 10 sabonetes
- 3 pacotes de papel higiênico
- 1 toalha de banho
Por que ainda é assim?
A pobreza menstrual escancara um abismo de desigualdade que persiste no Brasil mesmo com todas as campanhas, leis e discursos. A pergunta que fica é: quantas meninas ainda vão faltar às aulas, se isolar ou adoecer por falta de algo tão básico?





