MANAUS (AM) – Foram 203 dias de resistência. Internado desde o dia 5 de dezembro de 2024, após uma violenta agressão sofrida em um acidente de trânsito, o sambista Paulo Juvêncio de Melo Israel — o eterno Paulo Onça — teve sua morte confirmada nesta segunda-feira (27), aos 63 anos. O Brasil perde não apenas um artista, mas uma voz que ecoava a alma popular do samba.
Mas essa não foi uma morte natural. Foi o desfecho trágico de um episódio de fúria urbana. Paulo estava desorientado após se envolver em uma colisão na Praça 14, Zona Sul de Manaus, quando foi brutalmente agredido por Adeilson Duque Fonseca, o motorista do outro veículo. Vídeos registraram o momento em que, mesmo ferido e sem esboçar reação, o cantor foi retirado do carro à força, espancado no chão e teve a cabeça atingida com chutes. A cena chocou a cidade.
Transferido em estado grave para o Hospital João Lúcio e depois para o Getúlio Vargas, ele passou por cirurgia de emergência e ficou entubado, lutando pela vida por mais de seis meses. A luta terminou, mas deixou feridas abertas na cultura, na cidade e em todos que o admiravam.
O samba perde um mestre
Compositor de mais de 130 sambas-enredo, Paulo Onça projetou o nome de Manaus no cenário nacional. Suas obras foram interpretadas por nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Leci Brandão e Exaltasamba. Em 2017, seu samba embalou o desfile da Grande Rio em homenagem a Ivete Sangalo, um dos mais marcantes da história recente da Marquês de Sapucaí.
Mais do que um artista, Paulo era um militante cultural. Atuava com escolas de samba da capital e do Rio de Janeiro, defendendo o samba como expressão legítima da identidade brasileira e amazônica. Seu legado é vasto, plural e pulsante.
Reações oficiais e o apelo por justiça
O Governo do Amazonas, a Prefeitura de Manaus e a Câmara Municipal emitiram notas de pesar exaltando a importância de Paulo Onça para a cultura do estado. A Manauscult também informou que acompanhará os trâmites do velório e das homenagens ao artista.
Mas nas redes, o sentimento é de revolta. A demora na responsabilização do agressor, somada ao silêncio institucional ao longo da internação, acendeu o debate sobre violência no trânsito e o descaso com a cultura popular.
Mais do que luto, é memória viva
Paulo Onça foi silenciado pela violência, mas sua voz continua viva nas rodas de samba, nos desfiles e nas histórias que ajudou a contar com sua arte. Sua partida não será em vão — o samba agora canta por justiça, por memória e por um país onde a cultura seja celebrada, não esquecida.






