GOIÂNIA – O grito de socorro de Carolina Câmara não foi silencioso. Ele foi protocolado 13 vezes em delegacias e ecoou 50 vezes através do sinal digital de um botão do pânico. Ainda assim, o silêncio que recebeu de volta foi o das autoridades. A advogada, que deveria estar sob a proteção máxima do Estado, decidiu abrir mão da medida protetiva por uma razão desalentadora: o cansaço de lutar contra um sistema que parece esperar a tragédia acontecer para agir.
O histórico de violência é nítido e documentado. O agressor chegou a ser preso em flagrante após Carolina buscar o Instituto Médico Legal (IML) ensanguentada. Mas a liberdade dele marcou o início de uma nova modalidade de tortura. “Aproximações constantes, contatos, botão do pânico disparando de madrugada. Um terror psicológico diário”, relatou Carolina em suas redes sociais.
O abismo entre o alerta e a viatura
A falha apontada pela advogada é operacional. O botão do pânico, vendido como uma ferramenta tecnológica de salvamento, tornou-se um acessório de frustração. Carolina conta que, durante meses de perseguição e alertas emitidos, a polícia compareceu ao local uma única vez.
Enquanto ela vivia sitiada, o sistema burocrático seguia um ritmo letárgico: a polícia foi ao prédio do agressor apenas três vezes; como ele não estava, a situação permanecia sem solução, enquanto o perigo continuava à porta da vítima.
A dura realidade das delegacias
O ponto de ruptura de Carolina veio de onde deveria vir o amparo. Segundo seu relato, dentro da própria delegacia, ela ouviu que o agressor iria matá-la e que a única saída para tentar sobreviver seria “levar o caso a público” para gerar pressão.
“Eu ouvi que precisava levar a público para que algo fosse feito. Hoje eu entendo por que tantas mulheres morrem”, completou a advogada.
Um sistema que falha para muitas
O caso de Carolina Câmara acende um debate urgente sobre a eficácia das leis de proteção à mulher no Brasil. O aumento dos índices de feminicídio não parece ser fruto da ausência de legislação, já que a Lei Maria da Penha é referência mundial, mas sim da incapacidade do Estado em operacionalizar essa proteção no dia a dia.
Quando uma mulher com conhecimento jurídico e acesso a dispositivos de segurança se sente compelida a desistir da proteção oficial por absoluta falta de confiança no sistema, fica a pergunta: qual é o destino das milhares de brasileiras que sequer conseguem chegar à primeira denúncia? O Brasil vive tempos sombrios onde, para muitas, a medida protetiva não passa de uma folha de papel sem poder de reação.






