No último fim de semana, quem passou pelas ruas de Salvador, capital da Bahia, foi surpreendido por faixas exibindo frases como: “Volta, Maria. Desculpa aquele dia, eu estava nervoso”. As mensagens, espalhadas em locais estratégicos da cidade, geraram espanto e indignação. Mas o que parecia ser um simples pedido de reconciliação era, na verdade, parte de uma impactante campanha de conscientização contra a violência de gênero.

A ação foi promovida pelo Instituto Glória e pela ONU Mulheres, em parceria com a Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres, Infância e Juventude (SPMJ), e veio a público oficialmente nesta segunda-feira, 25 de novembro, Dia Internacional de Não Violência contra as Mulheres. Com o mote “Não volta, Maria”, a campanha escancara uma das fases mais perigosas do ciclo da violência: o arrependimento, quando o agressor tenta manipular a vítima a retornar ao relacionamento com pedidos de desculpas e promessas de mudança.
A estratégia de espalhar as faixas em Salvador foi pensada para gerar reflexão e desconforto. Os materiais foram colocados em bairros diversos, incluindo áreas de grande circulação, como a Avenida Paralela e o Centro Histórico. O contraste entre o conteúdo das frases e o contexto do Dia Internacional de Não Violência contra as Mulheres foi suficiente para atrair a atenção de moradores e turistas.
De acordo com a SPMJ, Salvador foi escolhida como palco da campanha por ser uma das cidades que lideram esforços na luta pelos direitos das mulheres no Brasil, com iniciativas reconhecidas nacionalmente.
Por Que ‘Não Volta, Maria’?
A frase “Volta, Maria” foi propositalmente provocativa. A ideia era simular uma narrativa comum em relacionamentos abusivos: o pedido de perdão, muitas vezes carregado de manipulação emocional, que precede uma nova onda de violência. A campanha quer mostrar que esses pedidos de desculpa não são arrependimento genuíno, mas parte do ciclo abusivo que pode levar a consequências ainda mais graves.
“Estamos falando de uma fase extremamente perigosa, em que muitas mulheres acreditam na mudança do agressor, mas acabam ficando presas a relações que podem ser fatais. Queremos dizer a essas mulheres: não voltem, procurem ajuda”, explicou uma representante do Instituto Glória.
O Dia Internacional de Não Violência contra as Mulheres, celebrado em 25 de novembro, é uma data instituída pela ONU para chamar atenção à necessidade de combater a violência de gênero. No Brasil, os números são alarmantes: segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é vítima de feminicídio a cada 6 horas.
A campanha gerou grande repercussão nas redes sociais. Muitos inicialmente acreditaram que as faixas eram reais, o que provocou indignação e surpresa. Quando a ação foi revelada como uma campanha de conscientização, a maioria elogiou a criatividade e a ousadia da abordagem, reconhecendo a relevância do tema.
“Foi chocante, mas necessário. Precisamos de ações que tirem as pessoas da zona de conforto e façam elas refletirem sobre o que acontece ao nosso redor todos os dias”, comentou uma internauta.
Além de conscientizar, a campanha reforça a importância de buscar ajuda. As mulheres em situação de violência podem entrar em contato com serviços como o Disque 180, além de procurar os centros de atendimento especializados oferecidos pela Prefeitura de Salvador e outras instituições.
Com a frase final “Não volta, Maria”, os organizadores deixam um recado claro: romper o ciclo da violência é o único caminho para salvar vidas. A campanha mostra que, mesmo em meio a pedidos de desculpa, é fundamental resistir, denunciar e buscar apoio.





