O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado hoje 24/07, traz um panorama preocupante sobre a violência no país.O Brasil registrou, em 2024, o maior número de estupros da série histórica: 87.547 casos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (24). O número representa um aumento de 8,5% em relação ao ano anterior. A maioria das vítimas são meninas de até 13 anos, o que revela a continuidade da violência sexual infantil como um dos principais desafios de proteção no país.
A violência contra a mulher também segue em ascensão. Foram registrados 1.492 feminicídios assassinatos de mulheres motivados por gênero, e as tentativas de feminicídio chegaram a 3.870, uma alta de quase 20%. O dado aponta para um ciclo contínuo de violência doméstica e falhas na proteção efetiva, mesmo após denúncias.
Segundo especialistas, a subnotificação ainda é grande, especialmente nos casos de estupro e agressões cometidas por parceiros ou familiares. A escassez de delegacias especializadas, a sobrecarga do sistema de justiça e a ausência de políticas públicas consistentes agravam o quadro.
Letalidade policial e fraudes financeiras também preocupam
Apesar da leve queda no total de mortes violentas no país de 46.400 em 2023 para 44.127 em 2024, o relatório mostra que a violência de Estado segue alta. Quase 2 mil pessoas foram mortas por policiais nas capitais brasileiras, número que acende alertas sobre o uso excessivo da força, sobretudo nas periferias.
O Anuário também aponta uma explosão de crimes financeiros: foram mais de 2 milhões de casos de estelionato, incluindo golpes bancários e fraudes digitais. Mulheres idosas estão entre as principais vítimas desse tipo de crime.
Violência persistente e respostas lentas
O Brasil mantém uma das maiores taxas de homicídios do mundo, com média de 21 mortes violentas por 100 mil habitantes. Embora estados como São Paulo e Santa Catarina apresentem índices mais baixos, outros, como Bahia e Amapá, registram números acima de 40 por 100 mil.
Para especialistas, os dados revelam não apenas a brutalidade das agressões, mas também a lentidão da resposta institucional. A conclusão é clara: enquanto políticas públicas forem fragmentadas e o sistema de proteção à mulher continuar falho, os indicadores seguirão em alta e as vítimas seguirão sozinhas.
Outros dados do Anuário que chamam atenção:
Em 2024, 1 em cada 5 medidas protetivas de urgência concedidas pela Justiça brasileira foi desrespeitada pelos agressores.
Os registros de roubos e furtos de celulares caíram 12,6%, mas ainda assim mais de 917 mil aparelhos foram levados, sendo os sábados os dias com maior incidência.
Apenas 8% dos celulares roubados foram recuperados pela polícia no último ano, o equivalente a 1 em cada 12 aparelhos.
As 10 cidades mais violentas do Brasil estão no Nordeste; metade delas, na Bahia, com destaque para a disputa entre facções criminosas pelo controle do tráfico de drogas.
Os investimentos em segurança pública somaram R$ 153 bilhões em 2024, alta de 6% em relação ao ano anterior. As prefeituras lideraram esse crescimento, com aumento de 60% em comparação a 2021.
O número de novas armas registradas caiu 79% entre 2022 e 2024, enquanto a produção nacional de armamentos sofreu queda de 92,3% no mesmo período.
A população carcerária brasileira chegou a 909.594 pessoas, com crescimento de 6% em 2024. O sistema enfrenta um déficit de mais de 237 mil vagas, e 13% dos presos cumprem pena em regime domiciliar com tornozeleira eletrônica.
Rio Grande do Norte e Santa Catarina lideram os casos de interrupção de aulas por violência nas proximidades de escolas públicas; o Rio de Janeiro aparece em terceiro.
Casos de bullying e cyberbullying também cresceram. As principais vítimas do bullying são crianças a partir de 10 anos (47%). Já no ambiente virtual, os adolescentes entre 14 e 17 anos representam 58% dos casos.
Os números revelados pelo Anuário da Segurança Pública escancaram não apenas os avanços, mas também os desafios persistentes no combate à violência no Brasil, especialmente quando se trata da proteção de mulheres, da atuação do sistema penal e do impacto da criminalidade no cotidiano da população. Mais do que estatísticas, os dados refletem vidas afetadas por um cenário que exige resposta urgente, integrada e eficaz por parte dos governos e da sociedade civil.





