Essa realidade expõe as múltiplas dificuldades enfrentadas por essas mulheres para romperem o ciclo de abuso, em um contexto que combina desigualdade social, dependência financeira e vulnerabilidades históricas.
Os números revelam que a interseccionalidade entre gênero e raça aprofunda os desafios. Mulheres negras, frequentemente submetidas a condições de trabalho precarizadas, possuem menor acesso a recursos financeiros que permitam a saída de relacionamentos abusivos. Além disso, questões como o racismo estrutural dificultam o acesso a redes de apoio, sistemas de justiça e políticas públicas que deveriam protegê-las.
Segundo especialistas, um dos grandes entraves está na dependência emocional e no isolamento promovido pelo agressor, que retira da vítima o suporte familiar e comunitário. “Essas mulheres enfrentam a solidão como uma camada adicional de opressão. Sem apoio externo, muitas sentem que não têm para onde ir, mesmo quando querem sair dessa situação”, explica a socióloga Maria Helena Costa, estudiosa da violência contra a mulher.
Outro ponto crítico é a subnotificação de casos. Muitas vítimas optam por não denunciar seus agressores, seja por medo de represálias, descrença no sistema judiciário ou pela ausência de alternativas habitacionais. “Uma mulher negra que denuncia precisa não só enfrentar o agressor, mas também um sistema que muitas vezes não está preparado para protegê-la adequadamente”, acrescenta a pesquisadora.
O estudo também reforça a importância de políticas públicas que levem em consideração as especificidades dessas mulheres. É necessário ampliar a rede de acolhimento, como casas-abrigo e atendimento psicológico especializado, e promover iniciativas que combatam a dependência econômica, com acesso a emprego e capacitação profissional.
Para a advogada e ativista pelos direitos das mulheres negras, Ana Paula Mendes, o caminho para a mudança exige comprometimento em várias frentes. “Precisamos de ações intersetoriais que combinem combate à violência, enfrentamento ao racismo e empoderamento econômico. Só assim conseguiremos transformar a realidade dessas mulheres”, destaca.
Enquanto avanços ainda são esperados, a conscientização é o primeiro passo para promover mudanças. Dar visibilidade às histórias de resistência dessas mulheres é essencial para que a sociedade compreenda a urgência de enfrentarmos a violência doméstica com um olhar mais inclusivo e eficaz.










