Manaus | 19 de outubro de 2026 | 18:34:55

Proposta de dolarização da Argentina é criticada por economistas que defendem ajuste fiscal

O candidato de orientação ultraliberal à presidência da Argentina, Javier Mieli, afirma ter descoberto o antídoto para conter a espiral de preços descontrolada: a dolarização da economia. Diante de uma taxa de inflação anual que ultrapassa os 100%, a promessa impulsionou o deputado a um resultado surpreendente nas eleições primárias da semana passada, onde conquistou a primeira colocação. Contudo, economistas questionam a viabilidade da proposta, destacando a escassez de dólares no país como um obstáculo crucial.

A medida controversa contemplaria a extinção do Banco Central, entidade que Mieli rotula como “o pior resíduo existente no planeta”. As reservas da moeda norte-americana mantidas pela autoridade monetária seriam liberadas, enquanto o governo implementaria uma drástica redução nos gastos. Mesmo assim, assessores do candidato estimam que seriam necessários cerca de US$ 35 bilhões para concluir o processo.

Mieli estima que o período de transição abrangeria de 9 a 24 meses, o que abarcaria quase metade de um mandato eventual, sem considerar a tramitação legislativa incerta. A favor do projeto, defensores argumentam que os argentinos já tacitamente adotaram a dolarização, pois a moeda norte-americana atua como reserva de valor. “O peso não tem valor algum, não serve nem como adubo”, declarou Mieli na semana passada.

Críticos do programa apontam que a Argentina perderia o controle sobre a política monetária, como explica Guido Zack, professor do Instituto Interdisciplinar de Economia Política de Buenos Aires (IIEP Baires) na Universidade de Buenos Aires. De acordo com Zack, o país abriria mão das ferramentas essenciais para mitigar choques macroeconômicos e conter a inflação. “O remédio seria pior que a doença”, avalia em entrevista ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).

O Equador, que adotou o dólar como moeda de curso legal há mais de vinte anos, frequentemente é citado como um caso de sucesso pelos apoiadores da ideia. Porém, Zack relembra que os equatorianos levaram bastante tempo para controlar a inflação e ainda enfrentam déficits fiscais insustentáveis, tendo inclusive passado por uma reestruturação da dívida externa em 2020.

O economista Iván Werning, argentino e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), conduziu um estudo sobre a dolarização em parceria com Pedro Martinez-Bruera e Tomás E. Caravello. Segundo o estudo, a adoção desse novo modelo poderia resultar em um aumento da inflação no curto prazo, especialmente em um contexto de falta de dólares.

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