O primeiro encontro entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a juíza federal substituta Gabriela Hardt, que assumiu os processos da Operação Lava Jato após Sergio Moro aceitar um ministério no governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), foi marcado por momentos de tensão e ânimos exaltados.

Já no início da audiência desta quarta-feira (14), Lula e a juíza se desentenderam e passaram cerca de cinco minutos interrompendo um ao outro. Adotando o mesmo discurso utilizado ao longo do caso do tríplex do Guarujá (SP), que rendeu ao petista sua primeira condenação, o ex-presidente afirmou não entender a acusação existente contra ele.

Para iniciar os embates, Lula pergunta a juíza “Eu sou dono do sítio ou não?”, “Isso é o senhor que tem que responder, não eu, doutor, e eu não estou sendo acusada neste momento”, devolveu ela.

“Não, quem tem que responder é quem me acusou”, rebateu o ex-presidente. A juíza, então, subiu o tom: disse que, se Lula continuasse agindo daquela forma, haveria “um problema”. Deixou claro, em seguida, que ela era a juíza do caso e que faria as perguntas para esclarecimentos necessários, mas que não iria responder a nenhum questionamento.

Lula foi ouvido por Hardt nesta quarta como réu no processo que investiga se o ex-presidente foi beneficiado por meio de reformas realizadas pela Odebrecht, Schahin e OAS em um sítio em Atibaia (SP).

De acordo com o MPF (Ministério Público Federal), as obras seriam uma contrapartida a contratos obtidos com a Petrobras de forma fraudulenta. A defesa de Lula nega as acusações.

Hardt também não poupou uma tentativa de brincadeira feita por Lula próximo ao fim da audiência. “Me leva com você”, disse ao advogado José Roberto Batochio, um de seus defensores, que deixou o local pouco antes do fim do interrogatório.

“Se o senhor quiser ficar em silêncio, também podemos encerrar”, sugeriu a magistrada a Lula. ”O senhor quer responder às outras perguntas ou quer encerrar?”

Batochio levantou-se e abraçou Lula.

‘Tchau, não quer me levar, não?’, insistiu o ex-presidente, que está preso desde a noite de 7 de abril na sede da Polícia Federal de Curitiba, para cumprimento de uma pena de 12 anos e um mês de reclusão em outro processo, o do triplex do Guarujá.

Outro embate entre Lula e Gabriela Hardt ocorreu já no final do interrogatório, quando o ex-presidente criticou o famoso PowerPoint utilizado pelo Ministério Público Federal (MPF) ao apresentar a denúncia contra ele no caso do tríplex do Guarujá (SP).

“Eu, se fosse presidente do PT, pediria para que todos os filiados do PT no Brasil inteiro, prefeitos, deputados, abrissem processo contra o Ministério Público para ele provar o PowerPoint”, cutucou.

A juíza não gostou nada da sugestão do petista e disse que ele estava “intimidando” os procuradores. “O senhor está intimidando a acusação assim, senhor presidente. Por favor vamos mudar o tom, o senhor está intimidando, está instigando e está intimidando a acusação. Eu não vou permitir. O senhor não fale isso de novo, o senhor está estimulando os filiados ao partido a tumultuarem o processo e os trabalhos, se isso acontecer o senhor será responsável”, repreendeu Gabriela.

Após uma breve intervenção de Cristiano Zanin Martins, outro defensor do ex-presidente, a magistrada continuou a bronca: “você tumultuar a Justiça por meio de diversas ações que você tem que responder, contestar, prestar informação, isso é intimidar, porque nos tira do nosso trabalho diário para ter que ficar respondendo intimações, informações e questões que não são pertinentes”.

E para finalizar, o último momento de tensão entre réu e juíza aconteceu já na fase de perguntas do próprio Zanin a Lula. O advogado questionava o petista sobre o processo de escolha de diretores de estatais e o ex-presidente disse que a Lava Jato inovou ao investigar os processos de indicações na Petrobras. Aproveitou, então, para dizer que a “novidade” talvez se devesse à “amizade” entre Sergio Moro e o doleiro Alberto Youssef.

“No caso da Petrobras, houve essa questão de jogar a suspeita sobre a indicação de pessoas. É triste, mas é assim, possivelmente por conta de que o delator principal é Youssef, que era amigo do moro desde o caso do Banestado”, criticou.

É melhor o senhor parar com isso”, Hardt foi dura em sua repreensão ao petista por meio de seu advogado, Cristiano Zanin Martins.

“Doutor, por favor. Ele não vai fazer acusações sobre meu colega aqui”, disse. Lula insistiu na crítica e afirmou, momentos depois, que Moro manteve Youseff sob vigilância por oito anos.

“Ele não ficou sob vigilância oito anos, e é melhor o senhor parar com isso”, disse a juíza, encerrando a discussão.

Também não foram poucas as ocasiões em que a juíza interrompeu Lula e sua defesa para que o ex-presidente, em suas respostas, se ativesse apenas a temas relacionados ao processo do sítio.

Em determinado momento, Zanin pediu questão de ordem à juíza para que Lula concluísse um relato sobre o processo do tríplex. Em tom firme, a juíza respondeu: “Se ele fugir do assunto e começar com discurso político, doutor, infelizmente, eu estou comandando a audiência e vou ter que cortar”.

O ex-presidente demonstrou estar irritado diversas vezes ao longo do interrogatório, dando respostas duras e irônicas, chegando a levantar o punho cerrado no ar.

Para presentes, juíza “manteve a ordem” na audiência.