Brasília (DF) – A sessão desta terça-feira (27) no Senado Federal não terminou apenas com microfones cortados e clima quente entre parlamentares. O palco foi também de um dos embates mais diretos entre dois pesos-pesados da política nacional: o senador Omar Aziz (PSD-AM) e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.
Durante audiência da Comissão de Infraestrutura, Omar não poupou críticas e acusou a ministra de travar o desenvolvimento da região Norte, ao adotar uma postura rígida sobre o asfaltamento da BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho.
“A senhora passeia hoje na Avenida Paulista. Nós queremos passear na BR-319”, disparou o senador, com tom de ironia, fazendo referência à mobilidade urbana de São Paulo em contraste com o isolamento da Amazônia.
Omar cobrou uma posição concreta do governo federal e criticou o excesso de burocracia ambiental como empecilho para a obra:
“Não é conversa fiada. Se Brasília tivesse que ser construída hoje, o Juscelino Kubitschek levaria 100 anos. Se tivesse um calango lá, o Ibama não deixava fazer.”
Marina rebate: “Sou bode expiatório”
A ministra reagiu com firmeza, acusando parlamentares de tentarem transformá-la em vilã por uma obra que foi ignorada por diversos governos ao longo dos últimos 15 anos.
“Esse bode expiatório chama-se Marina Silva. Porque é concretíssimo que eu saí do governo em 2008. De 2008 para 2023 são quantos anos? Ou não é verdade que o governo Bolsonaro teve quatro anos e não fez a obra?”, rebateu Marina.
Ela também reafirmou que defende a pavimentação com responsabilidade ambiental, apresentando ao ministro dos Transportes, Renan Filho, a necessidade de uma Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) para garantir que a rodovia não seja a porta de entrada para o avanço do desmatamento.
Disputa além do asfalto
Por trás do embate, há dois projetos distintos de Amazônia em choque: o de parlamentares que defendem infraestrutura como sinônimo de integração e progresso, e o da ala ambiental do governo, que exige critérios técnicos e proteção dos biomas mesmo em obras consideradas estratégicas.
A BR-319, única conexão terrestre entre o Amazonas e o restante do país, é há anos uma ferida aberta para a população do Norte, que sofre com o isolamento logístico. Ao mesmo tempo, a pavimentação sem planejamento já foi associada por especialistas a riscos como grilagem, queimadas e explosão do desmatamento.
Lula no meio do fogo cruzado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem declarado publicamente que tem compromisso com a BR-319, mas também prometeu que sua gestão seria marcada pela “retomada verde” e pelo combate ao desmatamento ilegal.
Com aliados de ambos os lados, Lula vê no impasse uma armadilha política: atender a base do Norte sem contrariar os compromissos ambientais assumidos internacionalmente.
Uma tensão que vai além da rodovia
O episódio reflete o desgaste entre Marina e parte da base governista. Assim como no caso da Margem Equatorial, Marina se tornou o símbolo do “freio técnico” em um governo que tenta avançar no desenvolvimento — mas sem perder a narrativa ambiental.
Nas redes sociais, o confronto já reverberou: de um lado, críticas a Omar por minimizar os critérios técnicos; do outro, cobranças a Marina por “atrasar” uma obra considerada vital por milhões de nortistas.





