Manaus | 8 de agosto de 2026 | 19:08:49

Nepal em Chamas: como a geração Z derrubou um governo em 5 Dias

Katmandu, Nepal – Setembro de 2025. O que começou como uma medida governamental para “proteger a população da desinformação” se transformou na maior crise política do Nepal em décadas. Em apenas cinco dias, milhares de jovens tomaram as ruas, dezenas de edifícios públicos foram incendiados, pelo menos 19 pessoas morreram e o primeiro-ministro renunciou. O pivô da revolta? O bloqueio das redes sociais.

O Estopim: Censura disfarçada de proteção

Na manhã do dia 4 de setembro de 2025, o governo nepalês liderado por K.P. Sharma Oli, do Partido Comunista, anunciou o bloqueio de 26 plataformas digitais, incluindo Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube e X (ex-Twitter). Segundo o ministro da comunicação Rekha Sharma, a decisão visava obrigar as big techs a se registrarem no Nepal para operar legalmente e combater o que chamaram de “onda de fake news”.

Apesar do discurso de “controle responsável”, a população viu o bloqueio como um ataque direto à liberdade de expressão em especial os jovens, que dependem das redes para se informar, se expressar e denunciar abusos.

“Eles querem nos calar. Mas nós somos a geração que cresceu com internet, e não vamos voltar ao silêncio,” declarou Sarita Gurung, 23 anos, uma das organizadoras dos protestos em Katmandu.

A Geração Z nas Ruas: o nascimento da #RevoltaDigital

As manifestações começaram de forma pacífica, mas rapidamente escalaram. Milhares de jovens, armados com cartazes, megafones e celulares (usando VPNs para burlar os bloqueios), saíram às ruas de Katmandu, Pokhara e outras cidades importantes.

A hashtag #NepoBabies viralizou internacionalmente — uma referência sarcástica ao nepotismo e à elite política que controla o poder no Nepal há décadas. A revolta se espalhou como fogo: tanto no sentido figurado quanto literal.

Incêndios, repúdio e repressão

No auge dos protestos, prédios históricos como o Singha Durbar (sede do parlamento), a Suprema Corte e a residência oficial do premiê foram incendiados por manifestantes. Imagens de chamas consumindo os símbolos do poder se espalharam globalmente.

A resposta das autoridades foi brutal. A polícia e o Exército utilizaram gás lacrimogêneo, balas de borracha e, em diversos momentos, munição real. O saldo: pelo menos 19 mortos e centenas de feridos, segundo organizações de direitos humanos como a Human Rights Watch.

Um governo sem saída: renúncias em cascata

Com a capital tomada e a população exigindo mudanças, o premiê K.P. Sharma Oli anunciou sua renúncia no dia 8 de setembro. Outros ministros, incluindo os titulares das pastas de Comunicação, Interior e Defesa, também pediram afastamento.

Em um discurso breve, Oli afirmou que “fez o que achava melhor para a nação, mas que respeita a vontade popular”. A fala foi recebida com vaias por manifestantes acampados diante do parlamento.

Redes desbloqueadas, mas a confiança está quebrada

No dia 9 de setembro, o governo interino suspendeu oficialmente o bloqueio às redes sociais. Mas o gesto foi considerado “tardio” pela sociedade civil e por ONGs.

“O governo tentou controlar o povo com censura. Mas acabou provando o contrário: que não se pode mais governar sem ouvir a juventude conectada,” afirmou Milan Acharya, analista político da Universidade de Tribhuvan.

Reflexo de uma tendência global

O caso nepalês escancara uma tendência preocupante em países asiáticos: o uso do combate à desinformação como justificativa para censura digital. Índia, Paquistão e Bangladesh já adotaram medidas similares, mas a repressão no Nepal e sua explosiva reação popular tornam o caso emblemático.

Especialistas veem a revolta como um ponto de virada.
“Não é só sobre redes sociais. É sobre liberdade, dignidade e voz. A Geração Z mostrou que não será passiva diante de autoritarismos digitais”, aponta a pesquisadora Deepti Rana, do Digital Rights Asia.

E agora, Nepal?

O país entra em uma fase de incerteza. Sem primeiro-ministro, com parte do parlamento destruído e uma juventude ainda nas ruas, o Nepal vive um momento de redefinição política. A comunidade internacional acompanha de perto, mas ainda há silêncio por parte de países como China e Índia principais aliados econômicos do Nepal.

Enquanto isso, nas redes agora liberadas a frase que mais circula é simples, mas poderosa:

“O povo não é um app que se pode deletar.”

Veja a vídeo completo aqui

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