Existe uma forma de censura que não exige retirar uma notícia do ar. Quando uma revelação já não pode ser escondida, muda-se o foco dos fatos para a reputação de quem permitiu que eles viessem a público. A mensagem continua existindo, os documentos permanecem disponíveis e as perguntas seguem sem resposta, mas a sociedade passa a ser convocada a julgar o mensageiro.
É exatamente o que acontece agora. O Brasil conhece informações gravíssimas envolvendo Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes: mensagens, encontros, pedidos de ajuda, contratos milionários e contatos mantidos às vésperas da prisão do banqueiro. Antes que tudo isso seja devidamente explicado, porém, parte da mídia, das redes e da militância já direciona sua energia contra André Mendonça, relator que retira o sigilo do material e defende que o assunto seja discutido publicamente pelo Supremo.
Não demonstram que as mensagens são falsas nem esclarecem a natureza das relações reveladas. Apenas apresentam um novo vilão. Esse é um dos métodos mais antigos de manipulação da opinião pública: quando não conseguem destruir a mensagem, tentam destruir a credibilidade do mensageiro. O debate deixa de ser sobre documentos e passa a girar em torno de personagens. O cidadão já não é convidado a pensar, mas a escolher uma torcida.
Em pouco tempo, entram em cena os soldados fiéis. Eles não precisam ler o relatório, conhecer a sequência dos acontecimentos ou compreender o que está juridicamente em discussão. Recebem a narrativa pronta, o inimigo escolhido e a frase que deve ser repetida. Compartilham pedidos de impeachment, convocam manifestações e participam da destruição pública de uma reputação sem perguntar quem deixa de ser cobrado depois que o novo alvo aparece.
Nenhuma autoridade está acima de questionamentos. Mas questionar alguém é muito diferente de usar qualquer informação relacionada a essa pessoa como uma borracha capaz de apagar o que ela tornou público. O que não podemos aceitar é uma absolvição por distração: cria-se um novo escândalo para que ninguém precise responder ao anterior. Troca-se o personagem central, desloca-se a indignação e espera-se que a sociedade esqueça a pergunta original.
A mídia tem enorme responsabilidade nesse processo. Jornalismo não pode funcionar como braço emocional de grupos políticos, entregando mocinhos e vilões prontos ao público. Quando uma cobertura abandona as perguntas originais para ajudar a fabricar um inimigo conveniente, deixa de fiscalizar o poder e passa a administrar a indignação popular em benefício dele.
Não precisamos transformar André Mendonça em herói. O ponto é outro: o Brasil tem diante de si revelações que exigem respostas e, enquanto elas não chegam, uma força impressionante se movimenta para mudar o assunto. Por isso, sempre que um novo inimigo for apresentado com urgência, observe quem deixou de ser questionado. A reputação do mensageiro pode ser atacada, mas isso não transforma um fato verdadeiro em mentira. Quando tentam destruí-lo, quase nunca é porque a mensagem perdeu importância. É porque ela está incomodando agora.
Érika Passos
Jornalista






