Manaus | 24 de julho de 2026 | 18:12:10

“Não quero ser mãe”: por que cada vez mais mulheres escolhem não ter filhos

Por muito tempo, a maternidade foi vista como a principal função das mulheres na sociedade. Contudo, essa realidade está mudando drasticamente, especialmente na América Latina. As mulheres da região estão cada vez mais optando por não ter filhos, em uma tendência que reflete não apenas escolhas pessoais, mas também uma profunda reflexão sobre as condições do mundo atual. A ONU projeta que, até o final do século, as taxas de fecundidade da América Latina serão comparáveis às da Europa, marcando uma queda acentuada na natalidade.

Diana Prado, uma desenhista industrial colombiana de 37 anos, é uma dessas mulheres. Para ela, o mundo está “difícil demais para trazer mais gente”. Em vez de se dedicar à maternidade, Prado escolhe focar em outros aspectos da vida, como especializações acadêmicas, apoio à sua família e viagens. “Trazer um filho ao mundo é muito caro, e a desigualdade no mercado de trabalho é brutal”, diz ela, referindo-se ao fato de que as mulheres na Colômbia ganham significativamente menos do que os homens, e a situação pode piorar ainda mais para mães.

A queda na fecundidade na América Latina é um fenômeno recente, mas impactante. De acordo com as Nações Unidas, a região registrou em 2024 a maior diminuição global nos índices de nascimentos, com um declínio de 68% em comparação aos anos 1950. Hoje, a média de filhos por mulher é de 1,8 — um número abaixo dos 2,1 necessários para manter a população estável. Além disso, o Chile já apresenta a menor taxa de fecundidade das Américas, um dado surpreendente, superando países como Itália e Japão, que há anos enfrentam o desafio do envelhecimento populacional.

O movimento Antinatalista ganha força

Além das mudanças demográficas, um movimento crescente, conhecido como antinatalismo, também tem desempenhado um papel importante na decisão de muitas mulheres de não ter filhos. Esta filosofia defende que, diante das condições atuais do mundo — como crises ambientais, injustiças sociais e incertezas econômicas —, não é ético trazer novas vidas ao planeta.

Isidora Rugeronni, uma bancária chilena de 25 anos, é uma fervorosa adepta do antinatalismo. Aos 21, ela decidiu se submeter à esterilização, acreditando que pode contribuir mais para a sociedade sem filhos biológicos. “Posso ser uma ativista muito mais forte e ajudar de outras formas, como adotando animais e promovendo causas ambientais”, explica Rugeronni.

De acordo com o Ministério da Saúde do Chile, o número de mulheres que optam pela esterilização aumentou 54% na última década. A escolha, para muitas delas, vai além de questões pessoais e se torna um ato de resistência às expectativas tradicionais de gênero. “Ser mãe é lindo, mas nem todas as mulheres nasceram para isso”, comenta Prado.

O impacto do envelhecimento populacional

Essa transição demográfica tardia, que começou primeiro nos países industrializados, tem consequências profundas. O envelhecimento populacional é um dos maiores desafios que a América Latina enfrentará nas próximas décadas. Com menos nascimentos e uma população cada vez mais idosa, os sistemas de bem-estar social podem ser pressionados, exigindo reformulações em áreas como previdência e assistência social.

Por outro lado, esse cenário também pode ser visto como uma oportunidade de crescimento econômico. Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o setor de cuidados, incluindo o atendimento a idosos, pode gerar milhões de empregos e impulsionar o PIB da região. Em 2015, a chamada “Silver Economy” já movimentava 3,7 trilhões de euros na União Europeia, e no Japão, esse mercado ultrapassa os 6 trilhões de reais.

 Uma nova realidade

As escolhas das mulheres latino-americanas refletem uma mudança cultural significativa. O antinatalismo, as preocupações econômicas e o desejo por uma vida mais independente estão desafiando as antigas normas sociais. Para muitas, a recusa à maternidade é uma forma de protesto contra a desigualdade de gênero, a injustiça e as dificuldades enfrentadas no mundo atual. Ao mesmo tempo, governos e economistas já se preparam para enfrentar as consequências de uma população em declínio e cada vez mais envelhecida.

A revolução silenciosa dessas mulheres está apenas começando, e seus impactos reverberarão nas próximas gerações.

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