A experiência de ir ao ginecologista deveria ser uma oportunidade para cuidar da saúde e esclarecer dúvidas íntimas. No entanto, para muitas mulheres lésbicas, essa consulta se transforma em um momento de desconforto e discriminação. Elas relatam que, além de não se sentirem acolhidas, enfrentam a falta de preparo e, em alguns casos, a negligência por parte dos profissionais de saúde.
Maria Clara, 29 anos, conta que já desistiu de frequentar ginecologistas após várias consultas frustrantes. “Sempre que menciono que sou lésbica, o atendimento muda. Os profissionais demonstram surpresa ou desconforto, e muitas vezes ignoram minhas queixas, como se minha orientação sexual invalidasse minha necessidade de cuidados ginecológicos”, relata.
Esse tipo de comportamento reflete uma lacuna na formação médica. Em muitos cursos de medicina, o atendimento a mulheres lésbicas é abordado de forma superficial ou sequer é mencionado. Como resultado, profissionais não estão preparados para lidar com as especificidades das pacientes LGBT+, o que pode levar à negligência de sintomas, diagnósticos errados e até à exclusão dessas mulheres de exames preventivos importantes, como o Papanicolau.
“O preconceito e a falta de conhecimento fazem com que o atendimento seja centrado em mulheres heterossexuais, como se todas as pacientes tivessem o mesmo perfil e as mesmas necessidades”, afirma a ginecologista e pesquisadora Carla Souza. “Isso é extremamente prejudicial, pois desconsidera a diversidade de experiências e de corpos das mulheres.”
Além disso, a invisibilidade das mulheres lésbicas na medicina contribui para que suas questões de saúde sejam frequentemente ignoradas. Estudos indicam que essas mulheres são menos propensas a realizar exames ginecológicos regularmente, devido à desconfiança nos profissionais de saúde e ao medo de sofrer discriminação.
A psicóloga Marina Nunes, que atua no atendimento a mulheres LGBT+, destaca que esse cenário também gera impactos psicológicos. “A falta de um atendimento acolhedor e humanizado faz com que muitas mulheres se sintam rejeitadas e até culpadas pela própria orientação sexual, o que pode agravar quadros de ansiedade e depressão.”










