Manaus | 24 de julho de 2026 | 11:47:57

Mulheres ampliam participação entre as notas máximas na redação do Enem

Nas últimas três edições do Enem, um dado tem se consolidado: as mulheres estão dominando a redação. Em 2024, dos 60 estudantes que atingiram a nota máxima de mil pontos, 46 foram mulheres, representando 76,7% das notas. Esse índice, embora já expressivo, reforça uma tendência observada desde 2021, quando as mulheres obtiveram 86,4% das notas mil, e em 2022, com 81,3%.

Para o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), esse desempenho das mulheres se reflete em uma maior representação nas faixas de alta proficiência da redação, onde, no ano passado, 204.837 mulheres ficaram entre 900 e 999 pontos, em comparação com apenas 83.765 homens. Esses números se destacam frente à média histórica desde 2009, onde 64,5% das notas máximas de redação foram de mulheres.

A professora Flávia Xavier, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), observa que as diferenças de desempenho entre homens e mulheres aparecem desde o início da educação básica e refletem estereótipos e expectativas de gênero. “É comum que as meninas sejam incentivadas em atividades ligadas às ciências humanas, áreas relacionadas à comunicação e ao cuidado, enquanto os meninos são direcionados para ciências exatas e uso da razão,” explica. Xavier também aponta que a escola, ao reproduzir essas expectativas sociais, reforça essa diferença.

Entretanto, os homens continuam dominando nas notas mais altas de matemática. No ano passado, três vezes mais homens do que mulheres atingiram entre 900 e 1.000 pontos em matemática, evidenciando um campo onde a presença masculina se destaca. Segundo Daniela Garcia, professora de redação, essa divisão reflete não só a educação, mas também o ambiente de debate e participação nas aulas de redação, onde a presença feminina é muito mais forte e engajada. “As mulheres, de fato, participam mais nas discussões e se envolvem com os temas, o que pode refletir em resultados mais expressivos,” destaca Garcia.

Para Luana Pizzolato, 20, uma das jovens que tirou nota mil na redação, o caminho até esse resultado começou cedo, com o incentivo à leitura e à escrita. “Desde pequena, sempre gostei muito de ler e escrever. A nota mil foi uma surpresa, mas acho que esse hábito fez toda a diferença,” conta. Hoje estudante de medicina, Luana exemplifica o empenho das mulheres em áreas tradicionalmente valorizadas pelo desempenho em redação.

A correção da redação do Enem envolve cinco competências, cada uma valendo 200 pontos, e avalia o domínio da língua portuguesa, a compreensão e aplicação do tema, a coesão textual e a proposta de intervenção, um critério exclusivo do Enem. A proposta de intervenção é um desafio que os alunos da rede pública enfrentam, mostrando, segundo especialistas, uma lacuna de preparo nas escolas estaduais em comparação com as particulares.

A diversidade racial nas notas mil também revela disparidades: em 2024, dos 60 candidatos com nota máxima, 39 se autodeclararam brancos, 13 pardos, dois amarelos e apenas um preto. Nenhum candidato indígena obteve a nota máxima, sinalizando que, além do gênero, a desigualdade racial também impacta o desempenho e a representação.

O desempenho feminino na redação do Enem é uma conquista significativa, mas também levanta questões sobre o papel das escolas e da sociedade na formação de estereótipos e diferenças de desempenho em diferentes áreas. Esse avanço na redação destaca o protagonismo das mulheres na educação e reafirma a importância de repensar as práticas educacionais para que todos possam alcançar seu potencial em múltiplos campos do conhecimento.

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