Manaus | 4 de junho de 2026 | 09:10:17

Menina de 14 anos estuprada viaja para realizar aborto legal

Uma menina de 14 anos, que mora na Grande São Paulo, precisou viajar até Salvador, na Bahia, para ter acesso ao aborto legal após sofrer um estupro pelo marido da avó.

A mãe contou que costumava levar a filha para passar o fim de semana na casa da avó materna, em São Paulo, a menina ia na sexta-feira e voltava no domingo.

O homem, “de quarentas e poucos anos” ,vivia com a avó da menina há mais de 15 anos. A mãe da menina disse que ele se aproveitou dos horários em que a companheira saía para trabalhar e ameaçou matar as duas caso a adolescente contasse sobre o abuso.

“No dia que descobri, fui até a casa da minha mãe e contei para ela. Minha mãe, que tem problema de coração, desmaiou na hora. O criminoso já tinha saído da casa da minha mãe e levado as coisas dele. No mesmo dia, ele ligou para minha mãe, confessou tudo, pediu desculpas, disse que ia se entregar. Mas, claro, sumiu”, relatou a mãe. O criminoso permanece foragido. 

A jovem, que estava na 31ª semana de gestação, não conseguiu atendimento em dois hospitais de São Paulo, onde o procedimento é limitado a 20 semanas. 

A mãe da menina descobriu a violência sexual e a gravidez ao perceber um aumento do volume abdominal. “Mãe, tem alguma coisa mexendo na minha barriga”, disse a menina, à época com 14 anos e na 29ª semana de gestação.

Desesperada, registrou um boletim de ocorrência e procurou o Hospital da Mulher em São Paulo, onde a filha foi submetida a exames e ao coquetel anti-HIV, mas informada de que o aborto não poderia ser realizado devido ao estágio avançado da gestação. 

No Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, chegaram a marcar cirurgia, agravada pela suspensão do serviço pela prefeitura. “Foi marcada a cirurgia. Tínhamos comprado tudo, arrumado a mala, quando ligaram do hospital cancelando. Marcaram mais duas vezes e cancelaram”, contou a mãe.

Orientadas por uma assistente social, mãe e filha viajaram, de ônibus, até Salvador, onde o serviço legal é oferecido. Foram dois dias e meio na estrada. O aborto foi feito na 31ª semana.

“Ela chorava direto e dizia: mãe, ‘por favor, tira ele de dentro de mim, eu não aguento mais’. Ela não dormia, só chorava, ficou anêmica, temi pela vida dela. Levar a gravidez adiante só iria prolongar o sofrimento e a lembrança do estupro”, contou a mãe.

Ainda em entrevista, a mulher disse que a filha falava: “‘tadinho do nenê, mãe, ele não tem culpa’. Eu disse: ‘minha filha, o bebê não tem culpa, você não tem culpa, eu não tenho culpa, quem tem culpa é o criminoso’ (…) Eu não queria ter feito isso, ela também não”.

Enquanto isso, o estuprador continua foragido. “Minha filha sempre pergunta: ‘e aí, mãe, não vai acontecer nada com ele? Por que ele não foi preso se cometeu um crime?'”, disse a mãe.

“A gente crê em Deus, e eu acho que, apesar de tudo o que aconteceu com minha filha, ele tem um propósito grande para a vida dela”, finalizou a mãe da adolescente. 

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