Manaus | 4 de junho de 2026 | 08:54:28

Mais um tiro que entra para a história

Milhares de pessoas assistiram o milagre acontecer diante das lentes das câmeras que captaram o momento em que Donald Trump, candidato republicano a presidente dos EUA, teve sua vida poupada por uma simples inclinação de cabeça que o livrou de uma bala de AR-15. Certamente, nem em seus melhores sonhos, o político imaginaria um livramento desse e, muito menos, em uma cena como essa que, potencialmente, tem impacto para ser decisiva na corrida pelo posto mais cobiçado do mundo.

Mas colocando a eleição (propriamente dita) em segundo plano, voltemos a atenção a um paradoxo americano: o país armamentista e os atentados, presidenciais ou não.

Os Estados Unidos da América têm uma relação histórica e complexa com as armas de fogo. Lá, a Segunda Emenda da Constituição garante ao cidadão o direito ao porte. Se, por um lado, essa medida resultou em uma cultura profundamente enraizada no uso de armas, por outro, o país carrega números expressivos de atentados contra seus presidentes, com quatro deles — Abraham Lincoln, James A. Garfield, William McKinley e John F. Kennedy — sendo assassinados no exercício do cargo.

Uma curiosidade nessa questão é que os armamentistas defendem a posse de armas como um símbolo de liberdade e independência. Mas que liberdade seria essa? Saindo um pouco do cenário político, será que os pais das crianças mortas a tiros por um terrorista em uma escola cristã de Nashville em 2023 se sentem livres ou inseguros?  É notório que a facilidade de acesso a armas de fogo contribui para um ambiente em que a violência armada pode ameaçar diretamente a liderança do país e suas crianças.

Fazer uma reflexão mais profunda para definir se a liberação de armas fragiliza ou fortalece a democracia é necessária. De um lado, estarão aqueles que argumentam que uma população armada é capaz de se defender contra tiranias e invasões, o que de certa forma fortaleceria o estado democrático. No entanto, a história dos atentados presidenciais nos EUA tem indicado que a facilidade na aquisição de armas também pode levar a um aumento da violência política, o que potencialmente desestabiliza o governo e pode fragilizar a confiança pública nas instituições.

Agora, imaginemos, já pensou se Donald Trump tivesse sido morto neste atentado? Qual teria sido o impacto global? Não é novidade para ninguém que, atualmente, o 45ª presidente americano é uma das figuras mais polarizadoras e carismáticas do mundo. Muitos especialistas são categóricos em afirmar que Trump extrapolou o Partido Republicano, ficou maior, superou inclusive outras icônicas figuras republicanas como o ex-presidente Ronald Regan. O bilionário deu ensejo a uma nova grande parcela da população americana, que costuma ser chamada de “trumpista”, e sua morte poderia desencadear uma série de reações, desde a violência civil, como inclusive foi visto no lamentável episódio do Capitólio – quando ele perdeu as últimas eleições para Joe Biden – até mudanças políticas drásticas. 

Mas isso, felizmente, para o bem da democracia, não aconteceu. Por um gráfico ao lado do palanque, que induziu Trump a virar sua cabeça no momento exato do disparo, o candidato republicano segue na disputa, e cada vez mais favorito nas pesquisas. 

E cabe aqui uma pergunta: o que tudo isso ofereceu de lições para o mundo? Será que as pessoas vão parar um pouco para pensar no que está acontecendo na sociedade? Não sabemos.

O que se pode extrair de mais esse episódio é que a polarização extrema, como essas que os candidatos ao redor do mundo têm gestado a cada eleição, tem criado um ambiente em que a violência se torna uma ferramenta de expressão política, algo que deveria ser feito por meio da retórica e capacidade de se fazer entender pela população. 

O mundo precisa de líderes que não se utilizem de ameaças para impor respeito, e nem que a título de “defender a democracia” acenem com o direito de usurpar a tranquilidade individual de cada um. E, lembrem-se: Quando os estampidos dos tiros falam mais alto, a paz se perde em silêncio.

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