Brasília (DF) – A saída da ministra Marina Silva de uma audiência no Senado nesta terça-feira (27) não é apenas mais um capítulo de machismo no Congresso. Por trás dos ataques misóginos e do desrespeito escancarado, existe uma disputa de poder: o futuro da exploração de petróleo na Amazônia, a pavimentação de uma rodovia estratégica e as regras que vão definir o que é (ou não) crime ambiental no Brasil.
Em resumo, Marina Silva virou alvo político porque representa um freio técnico a decisões que envolvem muito dinheiro, interesses regionais e pressões empresariais.
Entenda o que motivou o embate
A ministra foi convidada a falar sobre a criação de áreas de conservação ambiental na Margem Equatorial, uma faixa marítima no litoral Norte do país onde a Petrobras deseja explorar petróleo.
Senadores, especialmente da bancada do Norte, alegam que a criação de unidades de conservação pode inviabilizar esses empreendimentos. Marina afirma que as áreas propostas não coincidem com os blocos de petróleo e que o processo técnico vem desde 2005 — bem antes de qualquer decisão sobre exploração.
Além disso, Marina se posiciona com cautela sobre o licenciamento ambiental para obras como a BR-319, rodovia que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM) e que está no centro de um impasse: de um lado, quem defende o asfaltamento como solução para o isolamento da região; de outro, quem alerta para os impactos do desmatamento descontrolado caso não haja medidas de mitigação.
Ou seja, a ministra está em confronto direto com senadores que pressionam por agilidade em projetos de alto impacto ambiental.
Licenciamento ambiental: o ponto mais sensível
Outro foco de tensão é o novo Projeto de Lei do Licenciamento Ambiental, já aprovado no Senado e agora em tramitação na Câmara.
A proposta flexibiliza regras de licenciamento, sob a justificativa de “destravar o Brasil”. Ambientalistas, no entanto, afirmam que o texto enfraquece instrumentos de controle, favorece grandes empreendimentos sem estudo de impacto adequado e pode facilitar desmatamento e tragédias ambientais.
Marina pediu mais tempo para o debate. A reação? Foi acusada de “travar o país”, como afirmou o senador Omar Aziz (PSD-AM). A ministra rebateu dizendo que não aceitará ser bode expiatório de um modelo de desenvolvimento ultrapassado.
Por que os ataques viraram pessoais?
A tensão ultrapassou o campo técnico. Marina Silva foi interrompida, teve o microfone cortado, foi mandada “se pôr no lugar” e ouviu de um senador que a mulher dela merecia respeito, mas a ministra, não.
Isso gerou reação imediata de outras ministras, da primeira-dama Janja e de organizações que denunciam violência política de gênero. A ministra deixou a audiência afirmando que “não aceitará que usem sua imagem para distorções”.
Mas o que isso revela?
Revela que mulheres no poder — especialmente as que dizem “não” — ainda incomodam profundamente estruturas políticas marcadas pelo autoritarismo e pela misoginia. E quando essas mulheres ocupam espaços decisivos sobre meio ambiente, território e bilhões em jogo, o ataque é ainda mais feroz.
O que acontece agora?
• Marina estuda medidas legais contra os senadores que a atacaram;
• A discussão sobre o licenciamento ambiental será retomada na Câmara;
• O governo segue dividido entre a ala desenvolvimentista e a ala ambientalista;
• E a exploração de petróleo na Foz do Amazonas segue sob análise técnica do Ibama.
Este episódio, muito mais do que um bate-boca, é um retrato da disputa por modelo de país:
Um Brasil que avança a qualquer custo?
Ou um Brasil que mede as consequências antes de agir?





