Manaus | 4 de junho de 2026 | 04:59:09

Herói ou Justiceiro? Pai que usou chicote para ‘educar’ genro agressor é absolvido após 10 anos

foto reprodução das redes

IRECÊ, BAHIA – O calor do sertão baiano costuma ser implacável, mas para Luiz Carlos da Silva, o que queimava era o silêncio da filha. Durante meses, ele observou a jovem esconder o corpo sob roupas longas e pesadas, incompatíveis com as altas temperaturas da região. Por trás do pano, escondiam-se os hematomas deixados por Charles Barreto, o genro que, segundo o processo, agredia a esposa “para impor respeito”.

Neste mês, uma década após o crime, o desfecho do caso chegou ao Fórum de Irecê. Luiz Carlos não sentou no banco dos réus para negar o que fez. Pelo contrário: diante do Conselho de Sentença, reafirmou cada golpe. Ele foi absolvido da acusação de tentativa de homicídio em um veredito que ecoou mais como um julgamento moral do que estritamente jurídico.

“Chicote de amansar burro”

O crime ocorreu em 2016. Ao descobrir que a filha, então grávida, era vítima de violência doméstica, Luiz Carlos não recorreu à delegacia de imediato. Movido por um instinto ancestral de proteção, ele atraiu o genro para uma emboscada, amarrou-o e utilizou uma “taca” — instrumento usado na lida com animais — para castigá-lo. A fúria foi tamanha que até a faca que portava chegou a quebrar durante o embate.

Em seu depoimento, o pai foi enfático e não demonstrou arrependimento pela correção física aplicada:

“Preparei um chicote de amansar burro. Pra que eu vou negar? Não vou negar de jeito nenhum, se foi a verdade. Enquanto eu viver e souber que tu tá batendo na minha filha, tu não bate mais.”

O Veredito: Justiça ou Vingança?

A acusação, sustentada pelo Ministério Público, pedia a condenação por tentativa de homicídio qualificado. A defesa, por sua vez, argumentou que Luiz Carlos nunca teve a intenção de matar (animus necandi), mas sim a de “dar uma lição” e interromper o ciclo de violência que ameaçava a vida da filha e do neto que ainda não havia nascido.

Os jurados acataram a tese da defesa. Ao decidirem pela absolvição, o Conselho de Sentença entendeu que a conduta do pai, embora violenta, não visava o fim da vida do genro, mas a proteção da prole diante de uma agressão injusta e contínua.

O Limite Ético

A absolvição de Luiz Carlos reacende uma discussão complexa na sociedade brasileira: o falhanço das instituições em proteger mulheres vítimas de violência e a legitimidade da “justiça privada”. Embora juridicamente absolvido, o caso deixa uma pergunta incômoda: até onde vai o direito de um pai de intervir quando o Estado falha? Para os jurados de Irecê, a resposta estava no instinto de um pai que decidiu que a filha não sangraria mais sozinha.

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