O projeto World, que oferecia criptomoedas em troca do registro da íris humana, chamou a atenção de meio milhão de brasileiros, muitos dos quais residentes de áreas periféricas de São Paulo. Até o dia 25 de janeiro, o esquema prometia remuneração de cerca de R$ 600 em criptomoedas para quem aceitasse ter a “impressão digital” ocular registrada por meio de um dispositivo específico, a Orb. No entanto, a iniciativa foi interrompida pela Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que determinou que o pagamento não poderia mais ocorrer, em razão de possíveis violações da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
O projeto, que se espalhou rapidamente por São Paulo, focando principalmente em bairros da periferia, ganhou notoriedade nas redes sociais, especialmente no TikTok. Muitos dos participantes, atraídos pela oferta de dinheiro fácil, sequer compreendiam os riscos envolvidos. A World, empresa por trás da iniciativa, alegou que o objetivo era usar a íris humana como uma forma mais segura de autenticação, visando prevenir fraudes digitais, como deepfakes e bots.
No entanto, especialistas em privacidade e direito digital levantaram sérias preocupações sobre a falta de transparência em relação ao uso e destino dos dados coletados. A ANPD explicou que o pagamento poderia interferir na liberdade de escolha dos participantes, especialmente em áreas com alta vulnerabilidade social e econômica. O órgão também alertou que a prática poderia caracterizar vício no consentimento, já que muitas pessoas não compreendiam completamente o que estavam aceitando ao fornecer suas imagens oculares.
Embora a World afirme que os dados são criptografados e fragmentados em múltiplos servidores para garantir a privacidade dos usuários, especialistas questionam a falta de clareza nos termos e condições do serviço. Além disso, a empresa foi alvo de críticas por não garantir a responsabilidade sobre possíveis falhas de segurança, como ataques cibernéticos.
A decisão de interromper o pagamento e a coleta de dados de íris no Brasil segue um movimento global, com a União Europeia também demonstrando preocupação com o uso de biometria sem consentimento claro e informado. A iniciativa, que tem o apoio de grandes investidores como a Andreessen Horowitz e a Blockchain Capital, continua a ser vista com desconfiança, especialmente por sua promessa de criar um banco de dados global com imagens de íris para autenticação futura.
Com a suspensão do pagamento e da coleta de dados, o futuro do projeto permanece incerto, mas a discussão sobre os limites da coleta de dados biométricos e a proteção da privacidade dos cidadãos segue em pauta.






