Manaus | 19 de outubro de 2026 | 19:24:13

Gol contrata consultoria para rever gestão de frota; ações têm maior queda da Bolsa

Objetivo é melhorar liquidez de curto e médio prazos, diz comunicado da empresa. Papéis recuam mais de 7%.

A companhia área Gol contratou a consultoria Seabury Capital, uma das principais empresas financeiras do setor de aviação, para ajudar a empresa no seu processo de “ampla revisão da sua estrutura de capital”, incluindo a gestão de passivos, transações financeiras e outras medidas. Segundo um comunicado divulgado ao mercado, o objetivo da empresa é encontrar soluções para melhorar a sua liquidez e ajustar a frota de curto e médio prazos.

Os papéis da empresa caíam mais de 7% na B3, a R$ 8,42, a maior queda da Bolsa.

A companhia área Gol contratou a consultoria Seabury Capital, uma das principais empresas financeiras do setor de aviação, para ajudar a empresa no seu processo de “ampla revisão da sua estrutura de capital”, incluindo a gestão de passivos, transações financeiras e outras medidas. Segundo um comunicado divulgado ao mercado, o objetivo da empresa é encontrar soluções para melhorar a sua liquidez e ajustar a frota de curto e médio prazos.

Entre as tarefas da Seabury está a renegociação com os arrendadores de aeronaves da Gol, para realizar uma reestruturação de comum acordo das obrigações das frotas. Especialistas no setor aéreo consultados pelo GLOBO avaliam que o objetivo da busca por uma consultoria é melhorar a saúde financeira da GOL, com redução de custos. Embora o movimento seja positivo, ele mostra que a companhia ainda sobre para se recuperar dos efeitos nocivos da pandemia ao setor aéreo e de turismo. o mercado não gostou da notícias e as ações da companhia caem mais de 7%, a maior baixa do pregão.

Atrasos do MAX

— A consultoria vai ajudar a reduzir custos, incluindo o Custo Brasil. A empresa tem uma atuação internacional menor que suas concorrentes Latam e Azul, mas os custos são dolarizados. A empresa também sofreu com o atraso na entrega de aeronaves Boeing 737 MAX 8 — lembra Felipe Bonsenso, advogado especializado em direito aeronáutico.

De 15 dessas aeronaves programadas para chegarem neste ano, a Gol adicionou apenas uma nova aeronave MAX 8 à sua frota neste trimestre e também a quinta aeronave Boeing 737-800BCF, como parte do acordo de exclusividade com o Mercado Livre para transporte de cargas. Em 30 de setembro passado, a Gol possuía uma frota total de 141 aeronaves Boeing.

Outro especialista no setor, que prefere não se identificar, observa que o movimento de busca por uma consultoria para reestruturar as finanças é positivo, mas mostra que os números da empresa não estão bem. Ele lembra que a Avianca Brasil e a Latam recorreram à recuperação judicial quandos os números estavam ruins. Já a Gol tenta outro expediente, que pode ter efeitos positivos no médio prazo. Ele lembra que a situação da empresa se reflete em suas ações, que chegaram a valer R$ 41 antes da pandemia e agora estão sendo negociadas a pouco mais de R$ 8.

Prejuízo de R$ 1,3 bi

No balanço do terceiro trimestre este ano, a Gol reportou a maior receita de sua história para o período, chegando a R$ 4,7 bilhões, crescimento de 16,4% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Mas o resultado líquido foi um prejuízo de R$ 1,3 bilhão, queda 16% frente ao prejuízo do mesmo triemestre do ano anterior. Resultados financeiros negativos pesaram sobre o balanço, já que o resultado operacional foi positivo, principalmente por conta do câmbio. Excluindo-se a variação cambial negativa de R$ 1,0 bilhão no trimestre, o prejuízo líquido foi de R$ 300 milhões.

Para esse especialista, os credores e arrendadores de aeronaves terão que renegociar recebimentos para ajudar a reduzir o custo de capital da Gol. Não é interesse dos arrendadores que aviões sejam devolvidos, por isso ele vê espaço para rediscussão de valores. Ele diz que a Gol demorou em renegociar seus compromissos, enquanto Latam e Azul fizeram isso durante a pandemia. Ele lembra que a Gol só anunciou em agosto passado um plano de reestruturação de dívida.

Em outubro, a companhia anunciou a conversão de títulos de dívida no valor de US$ 1,2 bilhão em papéis que poderão ser trocados por ações preferenciais da companhia. A companhia também concluiu no terceiro trimestre o refinanciamento das debêntures da Gol Linhas Aéreas S.A. (GLA), resultando na amortização de aproximadamente R$100 milhões em setembro de 2023, sendo o saldo de R$900 milhões a ser pago em 30 parcelas mensais a partir de janeiro de 2024. Isso estende o prazo de vencimento das debêntures até junho de 2026. A Gol informou que reduziu sua alavancagem para 4,0 vezes em 30 de setembro, de 9,5 vezes no final do ano passado.

Sequelas da pandemia

Paulo Luives especialista da Valor Investimentos o setor aéreo vem de um período de recuperação das perdas da pandemia — e ainda apresenta sequelas. A Gol vem reestruturando seus passivos para ter fôlego financeiro, com boa parte dos pagamentos sendo postergada para além de 2025.

— Isso é positivo, mas há outros fatores que preocupam como a alta do preço do combustível, que deve continuar. E a empresa precisa renovar sua frota, como as concorrentes fizeram, o que ajuda a reduzir custos. E há o endividamento latente do setor. Ou seja, estes desafios podem continuar por anos — diz Luives.

Em relatório, os analistas do Citi avaliam que a contratação de um consultor financeiro para ajudar na reestruturação de suas obrigações de frota e auxiliar nas estratégias de gestão de passivos sugere que a Gol ainda enfrenta desafios financeiros significativos. Os analistas do Citi observam que o anúncio dá a impressão de que a entrada da Gol na holding Abra, que controla Gol e a colombiana Avianca, no início deste ano, não foi suficientemente eficaz para estabilizar a situação financeira da companhia aérea.Mesmo sem a Gol mencionar quaisquer prazos ou datas de conclusão para as iniciativas mencionadas, o Citi comenta ser possível que possa haver alguma medida em breve.

“No final de setembro, o caixa e equivalentes da Gol ficaram em R$ 905 milhões, em comparação com seus empréstimos de curto prazo de R$ 3 bilhões”, destacam.

O advogado Felipe Bonsenso não vê riscos ao consumidor para as viagens de final de ano ou de férias. No final de 2021, a companhia aérea Itapemirim (ITA) entreou em recuperação judicial e deixou mais de 45 mil passageiros sem viagem no final de ano, após suspender todos os voos, e reportar dívidas de mais de R$ 230 milhões.

— O brasileiro ficou traumatizado com a Itapemirim. Mas são situações diferentes — afirmou.

Segundo o balanço da empresa, a Gol aumentou em 13% o número total de voos ano contra ano, com reconfiguração de sua malha e a introdução de operações em mercados regionais. Cidades como Araçatuba (São Paulo) e Uberaba (Minas Gerais) passaram a ser atendidas por aeronaves Boeing 737, proporcionando conexões para diversos destinos nacionais, incluindo Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba e Brasília. Já a Gollog, unidade de transporte de cargas, mais que dobrou seu faturamento ano contra ano, atingindo R$257 milhões no terceiro trimestre.

O Grupo Abra anunciou em novembro passado mudanças em sua estrutura de liderança, em um movimento que visa preparar a companhia para uma abertura de capital. O grupo Abra detém 100% do capital da Avianca e, com a reestruturação da dívida de U$ 1,2 bilhão da Gol, os efeitos da conversão em participação acionária farão com que o grupo detenha 85% da companhia brasileira. Especialistas dizem que Avianca e Gol permanecem como empresas independentes, mas o risco Gol acaba pesando.

“É contínua e significativa a incerteza sobre como a Gol poderá eventualmente funcionar dentro da Abra, juntamente com as potenciais implicações relacionadas para os acionistas minoritários da empresa”, escreveram os analistas do Citi.

Procurada, a Gol informou que não faria comentários adicionais sobre a contratação da consultoria Seabury, além dos divulgados no comunicado ao mercado.

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