Por muito tempo, o universo equestre foi território quase exclusivo dos homens. Mas isso mudou e o galope agora tem outro ritmo. Cada vez mais mulheres estão assumindo o protagonismo nas pistas, nas redes sociais, nas empresas e nos bastidores de um dos setores mais tradicionais (e apaixonantes) do país: o mercado dos esportes equestres.
A imagem da mulher no cavalo já não é coadjuvante ela é central, estratégica e inspiradora. Em modalidades como Três Tambores e Seis Balizas, o Brasil acompanha uma nova geração de atletas que desafia estereótipos e constrói carreiras sólidas montadas sobre muito mais que tradição: são impulsionadas por paixão, técnica e coragem.
Um salto além da sela
Montar não é apenas uma habilidade física. É uma leitura de ambiente, um exercício de sensibilidade e, muitas vezes, um ato de resistência. É isso que torna o crescimento da presença feminina no meio equestre ainda mais impactante.
Segundo dados da Associação Brasileira do Cavalo Quarto de Milha (ABQM), há um aumento consistente na participação de mulheres em provas oficiais, tendência que reflete um movimento global. Nos Estados Unidos, a American Quarter Horse Association (AQHA) estima que entre 70% e 80% dos competidores recreativos em modalidades western sejam mulheres.
No Brasil, o fenômeno vai além da competição. Essas mulheres criam marcas, movimentam negócios, influenciam gerações e provam que não há contradição entre ser feminina e ser forte.
Saúde, conexão e liberdade
A relação com o cavalo também promove benefícios profundos para a saúde física e emocional das mulheres. Estudos clínicos mostram impactos positivos da equoterapia, incluindo melhora no fortalecimento do assoalho pélvico, na coordenação motora e na autoestima. O vínculo com o animal se tornou uma ferramenta terapêutica poderosa, capaz de auxiliar em quadros de ansiedade, depressão, traumas e até recuperação pós-parto.
A Sociedade Brasileira de Equoterapia (Sobrae) destaca que o movimento tridimensional do cavalo ativa até 95% dos músculos utilizados na marcha humana. Para muitas mulheres, montar é mais do que um esporte: é cura, é propósito, é liberdade.
Elas que ditam o ritmo
Quatro amazonas se destacam no cenário nacional e mostram, com histórias fortes e trajetórias múltiplas, como é possível viver intensamente no compasso do próprio galope:
Maria Paula Maia – Moda e velocidade no ritmo do Quarto de Milha
Criada em Maceió em meio a cavalos e vaquejadas, Maria Paula sempre soube o que queria: adrenalina. Tentou o hipismo, mas foi nos Três Tambores que encontrou sua verdadeira paixão.
Após uma tentativa frustrada de abrir um centro de treinamento no Nordeste, decidiu unir cavalo e moda, criando, com uma amiga, uma marca de roupas western femininas, hoje com alcance nacional. Mudou-se para o interior de São Paulo, casou com outro competidor e assumiu o estilo “cowgirl urbana” que a tornou referência nas redes sociais.
“As pessoas não imaginavam que os dois mundos podiam coexistir”, diz.
“Mas a moda entendeu, finalmente, a força da mulher que vive isso de verdade.”
Fatiana Ferreira – Agro, maternidade e força emocional
Nascida no campo, filha de agropecuaristas, Fatiana montava desde cedo. Após perder o pai aos 13 anos, encontrou nos cavalos o apoio para seguir. Hoje, é atleta, mãe, zootecnista e empresária com uma trajetória que inspira mulheres do agro em todo o país.
Mesmo após um problema grave na coluna que a afastou das pistas, voltou mais forte e consciente da conexão com o animal.
“O cavalo sente tudo. A verdadeira parceria vai além da técnica.”
Seu guarda-roupa? Um reflexo de sua identidade: botas, fivelas, chapéus.
“Tudo isso fala de quem somos.”
Carol Rugolo – Do laço à independência empreendedora
Carol cresceu entre rodeios. A equitação era hobby, até que virou profissão. Depois de um acidente, decidiu competir somente com os próprios cavalos, atitude rara que rendeu mais resultados e independência.
Fundou a Cutter Jeans, marca que nasceu quase sem querer, mas virou extensão de sua vida no campo. Suas redes sociais conectam com autenticidade, sem fórmulas.
“Postava o que vivia. E as pessoas se conectaram.”
Carol vê o espaço feminino na equitação como realidade consolidada:
“Temos treinadoras, recordistas, líderes. Estamos em todos os lados.”
O futuro já chegou e elas estão no comando
Montadas em cavalos de 500 quilos ou com os dois pés fincados no chão da arena, essas mulheres redefinem o que significa ser amazona no século XXI. Elas são donas do próprio ritmo, dos próprios negócios e das próprias narrativas.
E se antes montar era sinônimo de tradição masculina, hoje é também símbolo de empoderamento, estilo e transformação.
Para muitas delas, a liberdade começa no galope.
Os destaques femininos no universo dos cavalos foram tema de uma matéria especial da Forbes Brasil, que reforça o impacto crescente das mulheres nesse mercado.






