Ana Paula Braga, de 24 anos, foi morta em Los Angeles por dois brasileiros, que fugiram para o Espírito Santo; corpo da vítima ainda não foi encontrado.

“Todos os dias, quando dava 13h no horário daqui, a minha filha fazia uma chamada de vídeo e dizia: ‘Bença, mãe. Bença, mamadi’. Era assim que ela me chamava. Eu respondia: ‘Deus te abençoe, minha princesa linda’. Depois que a minha filha foi assassinada esse é o pior horário do dia para mim. Se eu pudesse, depois dessa hora, ficaria sem conversar com ninguém”. O desabafo é de Delma Felix, de 50 anos, mãe da mineira Ana Paula Braga, de 24, assassinada nos Estados Unidos por outros dois brasileiros em janeiro deste ano. Em conversa com a reportagem de O TEMPO, nesta terça-feira (3), a dona de casa implora para que o corpo da filha seja encontrado e critica o fato dos suspeitos responderem ao crime no Brasil. Eles estão presos no Espírito Santo. 

Ana Paula saiu da cidade de Mateus Leme, na região metropolitana de Belo Horizonte, há cerca de cinco anos com o filho pequeno e o pai da criança. Já nos Estados Unidos, o casal se separou e o menino passou a viver com o pai. “A Ana era maquiadora aqui em Minas, mas desde nova tinha o sonho de ir para o exterior. Achava que a vida era melhor lá. Ela trabalhou como faxineira, lavou carros e, atualmente, trabalhava para uma empresa de aplicativo em que fazia entregas de comida. Ela estava feliz, tinha trocado de carro”, contou a mãe.

O último contato das duas foi no dia 29 de janeiro e, segundo a mãe, a filha estava feliz porque não seria deportada. Em data anterior, segundo Delma, a filha teria digirido embriagada e, por isso, prestaria serviços comunitários em um necrotério. No dia 30 de janeiro, no horário normal de ligação, Ana não apareceu. A foto do perfil do WhatsApp tinha sido retirada.

“Comecei a ligar, a desesperar. Liguei nos outros dias e nada. Aí eu senti que a minha filha não estava mais entre nós porque, em nenhum momento, ela me deixaria sem notícias. Eu já sabia, no meu coração de mãe, que minha filha estava morta. Depois que as notícias foram chegando e soubemos tudo que tinha acontecido”, afirmou a mãe.

Foto: reprodução Instagram

O crime

De acordo com a Polícia Federal, a vítima foi estrangulada com um fio. Após o crime, no dia 30 de janeiro, os homens fugiram no carro da vítima até a Califórnia. De lá, seguiram para Oklahoma e, logo depois, foram de ônibus para o Texas. Os criminosos chegaram ao México e pegaram um avião para o Rio de Janeiro. Em solo brasileiro, a dupla foi para Cariacica, no Espírito Santo, onde acabou presa no dia 22 de fevereiro. 

Segundo a mãe, Ana tinha amizade com um dos suspeitos que pediu para se hospedar na casa dela por alguns dias. Ele e o outro homem estavam morando anteriormente em Massachusetts.

“Ela aceitou abrigar por uns dias em janeiro. Teve um dia que a minha filha escutou um dizendo para o outro: ‘será que a mulher das facadas sobreviveu?’. Ela ficou com medo e falei para ela pedir que eles saíssem do apartamento. Aí o que eles fazem? Matam a minha filha para roubar, zombam depois com o celular dela e fogem para o Brasil, que é refúgio de bandidos. Minha filha não mexia com drogas. E a polícia não faz nada, eu não tenho o corpo da minha filha para enterrar”, contou.

Assista ao desabafo da mãe de Ana Paula Braga

Planos de mudanças

Em julho deste ano, Delma tinha planos de ir para os Estados Unidos morar com a filha. Animada com a possibilidade de ter a mãe por perto, Ana já arrumava o apartamento para recebê-la. Chegou a gravar um vídeo mostrando os cômodos e encaminhou para a mãe. 

“A gente ia tentar conseguir que o filho dela passasse uns dias com a gente em julho. Estava todo mundo animado. A minha filha que me sustentava aqui no Brasil, agora precisei deixar a casa em que morava e estou vivendo de favor na casa de um amigo. Eu quero me internar em algum lugar, vou falar com o médico, estou sem forças, não durmo, não como. Estou fraca”, afirmou a dona de casa.

“Coração de mãe não consegue perdoar”

Contando cada dia que não ouve a voz da filha, Delma tem dois pedidos: ter o corpo da filha e que os homens respondessem o crime nos Estados Unidos. A maior parte da entrevista, a dona de casa não chorou, afirmou que era a primeira vez que não chorava diante da imprensa. 

“Estou me tornando uma pessoa cruel. Se eu tivesse condições, eu mandaria fazer com eles, o que eles fizeram com a minha filha. Se eu tivesse oportunidade de encontrá-los só queria entender porque fizeram isso com uma pessoa que acolheu os dois”, explicou.

No entanto, minutos depois, ela não conseguiu segurar as lágrimas. “É uma dor que não tem cura, não tem solução, não tem remédio que cure a minha dor. Eu tenho orgulho de ser mãe da Ana. O meu coração de mãe não consegue perdoar o que eles fizeram com a minha filha”, finalizou.

O que dizem as autoridades brasileiras

A motivação para o assassinato de Ana ainda é investigada. A reportagem de O TEMPO aguarda um posicionamento da Polícia Federal em relação à atualização dos fatos e como estão as conversas com a polícia americana.

Por meio de nota, a assessoria de imprensa da Polícia Civil do Espírito Santo informou que “o caso segue sob investigação da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Mulher (DHPM). Os suspeitos continuam presos e a Polícia Civil do Espírito Santo atua com o apoio das autoridades norte-americanas, bem como da Polícia Federal. A motivação do crime ainda não foi esclarecida e o corpo não foi localizado. Outras informações não serão repassadas para que a apuração dos fatos seja preservada”.   

Confira a nota na íntegra da Secretária da Segurança Pública e Defesa Social do Espírito Santo.

“DO CRIME

No dia 30 de janeiro de 2020, na cidade de Los Angeles, Califórnia estados Unidos, os brasileiros THIAGO PHILIPE SOUZA BRAGANÇA e WANDERSON JUNIOR DALBEM SILVA asfixiaram e mataram a também brasileira ANA
PAULA FEITOSA DOS SANTOS BRAGA. Eles enrolaram o cadáver num edredom, colocaram no porta-malas do carro da vítima, dirigiram por volta de duas horas até a cidade de Hot Spring, Califórnia, e jogaram o cadáver dentro de um container de lixo. Na sequência, ainda com o carro da vítima, seguiram até a Cidade de Oklahoma,
Estado de Oklahoma, onde, no dia 01 de fevereiro, abandonaram o veículo no estacionamento de um cassino. De lá seguiram de ônibus até Houston, Texas e,
novamente de ônibus, cruzaram a fronteira até a Cidade do México. No dia seguinte, foram até a embaixada do Brasil no México para emitir uma Autorização de Retorno ao Brasil, pois THIAGO não tinha seu passaporte
consigo. Os dois permaneceram na Cidade do México guardando dinheiro para comprar passagens aéreas e, no dia 7 de fevereiro, chegaram ao Rio de Janeiro.

DA APURAÇÃO INICIAL

No dia 11 de fevereiro, a dupla foi até a casa dos avós paternos de THIAGO, exigiu dinheiro e, para impressionar, THIAGO disse aos avós que ele e JUNIOR haviam cometido um homicídio nos Estados Unidos. A notícia então chegou ao conhecimento de um Agente de Polícia Federal lotado na Delegacia de São Mateus que contatou outro Agente Federal que atua no exterior, para que fossem realizadas as primeiras verificações, afim de evoluir ou não para uma investigação oficial.
Rapidamente foi possível reunir provas do fato e da autoria do crime e, em paralelo, foram também acionados para atuar no caso o Serviço de Segurança Diplomática do Consulado Americano no Rio de Janeiro, o Adido da Polícia Federal em Washington, a LAPD (Los Angeles Police Department) e o FBI. As autoridades americanas então encontraram o local do crime, vestígios de sangue, imagens de CFTV da dupla entrando no apartamento da vítima e mais tarde saindo com um grande volume, localizaram o veículo de ANA e iniciaram uma série de exames forenses buscando comprovar o homicídio.

DA AÇÃO NO ESPÍRITO SANTO

Na última quinta-feira, dia 20 de fevereiro, com farto material probatório reunido, a Polícia Federal então decidiu levar o caso para o GIOSP, o Grupo Integrado
de Operações de Segurança Pública, criado recentemente pelo Secretário de Segurança Pública Roberto Sá. Em razão do envolvimento de tantas agências policiais nacionais e internacionais, o GIOSP apresentava-se como a melhor opção para seguir em frente com as ações necessárias no Espírito Santo por contemplar todas as
forças de segurança em um só ambiente. Foi então instaurado Inquérito Policial, representado por busca e apreensão onde acreditava-se que a dupla poderia ser encontrada e pela prisão temporária por 30 dias em razão de crime hediondo cometido. A Promotoria de Justiça se empenhou em analisar a demanda e o Judiciária de
forma célere e temporânea acatou o pedido da Polícia.
Na manhã de hoje, Policiais Militares do 7o Batalhão, prenderam THIAGO e JUNIOR quando saiam de uma casa em Cariacica, portavam passaportes e, ao
que tudo indicam, iniciariam outra fuga.

DA AÇÃO FUTURA

O caso agora seguirá sob responsabilidade da delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa juntamente com a Adidância da Polícia Federal nos Estados Unidos que apoiará na internalização das provas produzidas pelas equipes policiais americanas. A ação do GIOSP demonstra como esse formato de trabalho é positivo, em
especial em casos complexos, e que a cooperação entre as instituições policiais deve ser sempre o norte das ações de Segurança Pública do Estado.”

Fonte: O Tempo