“Eu era evangélico e temente a Deus, mas eu me revoltei com ele. Tanta criança abandonada na rua, à mercê da criminalidade, e ele deixa que levem a minha filha?”, questiona o vigilante Pedro Lourenço Reis, de 58 anos, pai de Shara Ruana Nascimento Reis, desaparecida desde o dia 28 de outubro de 2009, à época com 7 anos. Neste sábado (28) data em que completa dez anos que Shara desapareceu, o caso ainda continua um mistério a ser desvendado.

Pistas e trotes? A família diz que recebeu muitas informações, mas nada levou ao paradeiro de Shara. “Eu cheguei a cavar umas quatro covas, a maioria delas no mato, na região do Distrito Industrial, Zona Sul, no intuito de achar o corpo dela. Todas as informações que recebíamos, nós íamos atrás, mesmo que, em algumas vezes, a polícia não estivesse conosco. Infelizmente 80% das ligações eram trotes e isso nos deixava ainda mais tristes”, relata Pedro. 

Segundo o pai de Shara, os principais suspeitos de envolvimento no desaparecimento da filha tiveram contato por dois dias seguidos com a família e, inclusive, brincaram com a vítima na casa dela.

“Na época, a menina morava em frente à nossa casa e o menino morava no outro quarteirão, os dois tinham 13 anos. Na verdade, não existia um laço de amizade que pudesse nos aproximar. Mas, no sábado, dia 27, um dia antes da Shara sumir, eles brincaram com as crianças no pátio aqui de casa”, lembra.

Pedro conta que durante a manhã do dia seguinte (domingo), data do desaparecimento da filha, a vizinha foi até sua casa atrás de Raydiene Nascimento Reis – irmã da desaparecida.

“A Shara estava brincando no pátio de casa com algumas folhas que caiam da árvore, quando essa jovem chegou pálida e desconfiada perguntando pela minha filha mais velha, que na época tinha a mesma idade que ela, 13 anos. Na época éramos evangélicos, informei que ela estava no culto dominical na igreja e a menina foi embora. Passaram-se alguns minutos. Minha mulher estava na cozinha preparando o café e eu sentado em uma cadeira, com os cotovelos apoiados sobre a mesa e as mãos na direção do rosto, em posição de oração, meditando. Nisso, a adolescente retornou a procura da minha filha”, revela Reis. 

O homem conta que a jovem estava aflita e ao ser informada pela segunda vez que a irmã de Shara não estava em casa, decidiu ir embora.

“Depois disso, eu ia sair para comprar pão na padaria, que ficava na mesma rua da minha casa [distante uns 40 metros], mas antes fui tomar banho e a Shara pediu para ir no meu lugar. A mãe dela lembra que ela ainda voltou na porta e falou algo, mas não deu pra entender e saiu. Ela estava vestindo uma blusa e um short rosa. Não passou nem cinco minutos e eu, quando descobri que ela havia ido sozinha, corri para a rua, mas ninguém a tinha visto chegar ao destino. Depois disso, a angústia não teve mais fim”, afirma o vigilante.  

Acusações 

Para os pais, os dois adolescentes têm participação no desaparecimento de Shara, porém a Polícia descartou o envolvimento deles.

“Por incrível que pareça, na manhã que aconteceu o crime, eu tive uma visão assim que  saí do banho. Eu vi a Shara sendo levada por essa minha vizinha por uma estrada de barro. Depois disso, corri até a padaria, mas já era tarde demais. Ainda no domingo, após o sumiço da minha filha, a vizinha só apareceu à noite. Ela estava toda desconfiada e disse ter passado o dia todo na casa de uma tia. Fomos até a casa dessa mulher e ela revelou que não via a sobrinha há um mês. Isso só fortalece as nossas suspeitas de que ela tem envolvimento no desaparecimento da Shara”, enfatiza o vigilante. 

“Outra pista que nós temos é que o adolescente, que andava com essa minha vizinha, apareceu na noite de domingo chorando muito. Dizia que queria falar comigo e com minha mulher. Desesperado, nos confidenciou que sabia quem tinha levado a Shara e ele iria nos mostrar onde ela estava. Ele nos fez rodar com ele, em um carro, por muitos lugares na região no bairro Betânia e adjacências, mas tudo em vão. Uma vez ele nos levou para uma rua que dava em um rio [sem saída]. Chegando lá informou que não ia dizer mais nada, pois temia ser morto pela pessoa que sequestrou a Shara. Hoje em dia ele é homossexual, tomou hormônios para ter aparência feminina e vive como se fosse mulher. Inclusive, não mora mais aqui no bairro”, detalha o pai da desaparecida. 

Além dos adolescentes, na época, a família também recebeu denúncias de que a filha havia sido levada por um homem rico e estaria na Venezuela ou que um casal vizinho havia roubado a criança e viajado para um município do interior do Amazonas.

Pedro conta que ainda foi acusado de ter vendido a filha. “Algumas pessoas chegaram a apontar o dedo na minha cara para dizer que eu havia vendido a Shara por R$ 2 mil. Isso é um absurdo! Fantasiaram tanta coisa que isso acabou com a minha família, inclusive desestruturou meu casamento”, acusa o vigilante.

Suposições 

Os pais acreditam que a menor foi raptada por uma família estrangeira e que pode estar viva. “Para nós ela não morreu. Eu sinto que ela foi levada por alguém, para morar em outro país. Infelizmente eu não tenho condições financeiras para procurá-la em outra região e nem tive apoio do governo ou autoridades para realizar esse tipo de buscas. Eu acredito sim que ela um dia vai voltar”, afirma angustiada e com lágrimas nos olhos a costureira Alzenira Nascimento Reis, de 40 anos, mãe da desaparecida. 

Conflitos

Após dois anos do sumiço da filha, Pedro e Alzenira anunciaram a separação. O pai de Shara continua morando na casa onde guarda lembranças da filha. Já a costureira mora em outra residência, onde paga aluguel de R$ 700.

“Eu moro com minha filha mais velha, de 24 anos, e minha netinha, que tem um ano e oito meses. Ela recebeu o nome de Sara em homenagem à tia desaparecida. Já os meus outros dois filhos, um menino de 22 anos e a menina de 19, moram com a mãe. Ela se culpa por ter deixado a Shara ir sozinha à padaria, mas eu já disse pra ela não alimentar esse sentimento. As coisas acontecem com a vontade de Deus, porém, eu não me conformo até hoje e me revoltei com ele. Por dois anos eu fiz campanha na igreja para que ele trouxesse a Shara de volta para mim, mas isso não aconteceu e eu decidi abandonar a religião”, comenta.

Investigações 

A família conta que até hoje recebe denúncias anônimas informando o paradeiro de Shara, mas todas não passam de trotes. Atualmente a família não tem apoio de órgão de investigação e nem conta com a ajuda de políticos e pessoas dispostas a ajudar encontrar crianças desaparecidas. Apesar disso, Pedro e Alzenira fazem questão de lembrar alguns nomes que tanto ajudaram a divulgar o caso com notícias na mídia. 

“Somos gratos ao ex-vice-governador Henrique Oliveira, à ex-vereadora Mirtes Sales, aos ‘irmãos coragem’ – Carlos e Wallace Souza [morto em 2010] – que na época tinham um programa de TV, e também à deputada federal Socorro Sampaio, que viajou conosco para Brasília (DF), onde levamos o caso há alguns membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Desaparecimento de Crianças e Adolescentes, no Senado Federal”, destaca Alzenira, lembrando que a viagem não trouxe o resultado que a família esperava. 

Os pais da desaparecida contam que com a nova gestão à frente da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca) as investigações não tiveram continuidade.

“Na época da Linda Gláucia, nós sempre tínhamos a certeza que a polícia estava investigando. Os policiais vinham até nossa casa e toda e qualquer denúncia ela mandava investigar. Há cerca de uns quatro meses, meu filho recebeu um e-mail que revelava informações sobre o paradeiro da Shara. Levamos o conteúdo à delegada Juliana Tuma, titular da Depca, mas ela disse que não era suficiente e que precisa de provas mais concretas para poder iniciar a investigação. Sinto falta de uma polícia mais atuante, porque o corpo da minha filha não foi encontrado e eu tenho certeza que ela está viva”.

Responsável por boa parte das investigações, o trabalho de Linda Gláucia é elogiado pelos familiares de Shara Ruana

 

Polícia Civil

Por meio da assessoria, a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) informou que o inquérito policial que investiga o desaparecimento da adolescente continua à disposição da autoridade policial da Depca. No entanto, o órgão não informou quais procedimentos de investigação atualmente estão sendo adotados pela especializada. 

O EmTempo solicitou uma entrevista com a delegada Juliana Tuma, mas ela respondeu, por meio da assessoria, que não atuou nas investigações em torno do caso “Shara Ruana” e, por isso, não poderia se pronunciar. Juliana é titular da Depca desde o dia 15 de outubro de 2015, quando substituiu Linda Gláucia, afastada do cargo após uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). 

Apesar de dois anos comandando a Depca, Juliana decidiu ficar em silêncio sobre o “Shara Ruana”. Contudo, por telefone, a ex-titular da especializada, Linda Gláucia, que atualmente comanda o posto policial do Distrito de Cacau Pirêra, em Iranduba (município distante 27 km da capital), disse ao EmTempo que lamenta não ter solucionado o caso. 

“Shara Ruana foi um dos casos que, infelizmente, eu não consegui solucionar. Na época, coletamos muitos depoimentos, alguns suspeitos foram interrogados, mas não houve provas suficientes que comprovassem a participação de algum deles no sumiço da criança. Os dois jovens que a família acredita ter envolvimento, na verdade fantasiaram várias histórias a respeito do desaparecimento”, informa Linda Gláucia.

A delegada disse ainda que a Polícia pôde comprovar à época os relatos fantasiosos dos adolescentes.”Nós, que fazemos o papel de polícia, conseguimos identificar que tudo não passava de mentiras e a suposta participação deles foi logo descartada. Apesar de não estar mais comandando este tipo de investigação, eu acredito totalmente no trabalho que a Juliana Tuma vem realizando e deposito total confiança nela para continuar as investigações no intuito de encontrar a Shara. Eu acredito sim que um dia isso será possível”, completa Linda Gláucia. 

Denúncias 

Quem tiver informações que possam levar ao paradeiro de Shara Ruana Nascimento Reis, hoje com 17 anos, pode entrar em contato com a família dela por meio dos números de telefones: (92) 99264-1544 (Alzenira), (92) 99374-8419 (Pedro) e (92) 99375-4197 (Raydiene – irmã).

A Polícia Civil disponibiliza os números: 181 e 190. Para falar com os servidores da Depca, o informante pode entrar em contato pelo telefone: (92) 3656-8575. A delegacia está localizada na rua 6, nº 1, conjunto Vista Bela, bairro Planalto, Zona Centro-Oeste de Manaus.

Foto: Divulgação/Polícia Civil – Janailton Falcão

Fonte: Em Tempo