O bullying escolar, caracterizado por agressões e intimidações recorrentes, é uma preocupação crescente entre pais e mães no Brasil. De acordo com pesquisa do Datafolha, a maioria dos responsáveis teme que seus filhos sejam vítimas dessa violência. Entre as mães, 65% afirmam ter “muito medo” de que os filhos sejam alvos, percentual que é o dobro em relação aos pais (32%). O temor também apresenta um recorte racial: 65% das pessoas pretas têm grande preocupação com o bullying contra suas crianças, enquanto entre pessoas pardas e brancas os índices são de 49% e 42%, respectivamente.
Especialistas apontam que o medo do bullying vai além de um receio genérico sobre o ambiente escolar, estando muitas vezes associado a marcadores sociais como raça, classe e gênero. Para Odara Philomena, pesquisadora do Afro-Cebrap (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial), o aumento das discussões públicas sobre bullying e suas consequências psicológicas contribui para essa crescente preocupação.
“Não é uma simples brincadeira. O bullying atinge o psicossocial da criança, prejudicando o aprendizado e as relações sociais. O medo reflete o reconhecimento dessa violência, especialmente no que diz respeito a crianças negras, que sofrem com termos repetidos que carregam conotações raciais”, explica Odara, doutoranda em educação pela UFRJ.
A pesquisadora destaca que crianças brancas tendem a enfrentar apelidos que são mais individualizados, enquanto crianças negras frequentemente sofrem ofensas de teor coletivo e racista. Isso reforça a necessidade de ações afirmativas e de educação antirracista no ambiente escolar.
A Realidade de famílias negras
Para Kelly Baptista, gestora pública de 40 anos e mãe de dois meninos pretos, o maior temor é o bullying de cunho racial. “As pessoas criam padrões, e nós, pessoas pretas que não estamos nesses padrões, sempre somos discriminados”, desabafa. Ela relata que, em sua experiência como mãe, a preocupação vai além do ambiente escolar, abrangendo também a construção da autoestima de seus filhos. “É uma luta constante para que eles saibam que não têm que se encaixar nesses padrões para serem respeitados.”
Odara Philomena reforça que a escola pode ser tanto um espaço de perpetuação quanto de transformação das violências simbólicas. “O trabalho com educação antirracista é essencial para desnaturalizar essas práticas e ensinar às crianças o respeito à diversidade”, pontua. Programas de formação docente, rodas de conversa com estudantes e engajamento das famílias são algumas das estratégias defendidas pela pesquisadora.
Além disso, políticas públicas que promovam a equidade racial e social no ambiente escolar podem ser um fator decisivo para reduzir os casos de bullying, especialmente aqueles motivados por questões raciais. A conscientização dos responsáveis, aliada a práticas escolares inclusivas, é o caminho para proteger as crianças dessa violência cotidiana.
O estudo do Datafolha evidencia um cenário preocupante, mas também sinaliza a urgência de enfrentarmos a questão com políticas e ações educativas eficazes, promovendo um ambiente escolar seguro e inclusivo para todas as crianças.





