Datas. Quando elas chegam o coração aperta. A realidade volta a bater à porta da consciência e abre, novamente, o caminho da lembrança daquela presença física que agora não temos mais.
São 375 dias que já não temos a oportunidade de contemplar seus cabelos sedosos que tanto admirávamos, de sentir suas mãos macias e acolhedoras, seu olhar único de amor e carinho. O cheiro então, é como se sentíssemos um corte profundo e suave em nossa barriga subindo até a garganta.
Em semanas como essa, que antecedem uma data que tanto comemoramos em família, a introspecção toma conta, ainda mais quando por ironia do destino, um debate político é transmitido pela televisão. E esse detalhe é singular, porque sempre levávamos esse assunto à mesa dos almoços dos nossos sábados. Ahh os sábados.. nunca mais foram os mesmos depois da sua ausência, e não tinha como não ser, afinal, os nossos debates ao mesmo tempo que tensionava o ambiente nos mostrava o quanto éramos uma família, unida e que se ama.
Na minha família, nunca se foi permitido tolher a opinião do outro, muito pelo contrário. E isso eu posso dizer, que orgulho poder viver, pois não é difícil achar familiares que entram em conflito e param de se falar por causa disso.
Mas volto meus pensamentos ao meu amado pai. Ao ler o pedido de um apresentador famoso que postou, em suas redes sociais, que as pessoas lhe enviassem a história mais maluca que tiveram com seus pais, eu tento buscar na memória e confesso, maluca eu não consigo lembrar, mas especiais eu tenho muitas.
Uma delas me remete aos meus 12, 13 anos, quando sofria bastante com a minha bronquite asmática. Certo dia, em uma viagem para o Rio de Janeiro, que já era um ritual da nossa família, nós havíamos acabado de chegar no município de Arraial do Cabo, que naquela época era quase uma vila comunitária. Não havia hospital de médio porte e, quando acontecia alguma coisa de saúde, tínhamos que nos recorrer somente à ele mesmo, ao meu pai, médico dos mais brilhantes.
Naquele dia, que marcou a minha memória, estava com uma crise de falta de ar das mais agressivas e o nebulizador, que sempre levávamos em todas as viagens, não estava dando conta. Lembro da cara de preocupação e aflição da minha mãe, dos meus tios (que viajavam sempre com a gente), se contrapondo com a serenidade do rosto do meu pai.
Chegou um momento que ele me pegou e colocou no carro. Pensei sinceramente que íamos bater em Cabo Frio, que na época já era mais desenvolvida que Arraial. Mas o meu pai tinha outros planos. Com ele, fomos, só nós dois, rumo ao “Pontal do Atalaia”, um morro alto que comumente era visitado por turistas que queriam contemplar a beleza única da famosa “Prainha”. Chegando lá no alto, saímos do carro, e ele pediu para que eu me concentrasse na minha respiração e observasse tudo aquilo que Deus estava nos proporcionando viver. E, incrivelmente, consegui controlar a entrada e saída de ar dos meus pulmões, normalizando o meu quadro de saúde.
Lembro de beijá-lo e dizer que tinha dado certo. Eu não estava mais sentindo falta de ar. Entramos no carro e voltamos para encontrar nossos familiares. Quando cheguei, minha mãe perguntou como eu estava e aonde tínhamos ido, e disse que estava bem e que fomos dar uma volta.
Passados todo esses anos, me dou conta que naquele dia o que realmente aconteceu foi a magia do amor do meu pai e de Deus, da espiritualidade e de tudo que nos envolve e nos envolverá sempre. Afinal, não foi remédio que me tirou de uma crise asmática, foi apenas e tão só a força do amor de um pai com o seu filho.
Esse dia dos pais que se aproxima, pela segunda vez não teremos a sua presença física. Como disse, a dor machuca mas a memória traz esses capítulos que ficaram guardados na nossa alma. E sei, que da onde ele estiver certamente dará um jeito para se fazer ainda mais presente de todos nós, porque para o amor a distância não existe.
Feliz dia dos pais, meu amor, Agnaldo Gomes da Costa.









Respostas de 3
Lindo, Maravilhoso & Emocionante….
♥️♥️♥️
Que lindo!!! Me tirou lágrimas dos olhos… aqui tbm vai ser nosso primeiro ano longe do meu pai…
aah meu coração!!