Manaus | 23 de outubro de 2026 | 16:40:02

Omar Aziz promete oito hospitais no interior, mas histórico de obras e desigualdade na saúde levantam questionamentos

Omar Aziz
Omar Aziz

A promessa de construir oito hospitais regionais no interior do Amazonas foi um dos principais compromissos apresentados pelo candidato ao governo Omar Aziz (PSD), durante o debate promovido pela Rede Amazônica, na quinta-feira (22). A proposta prevê unidades com 150 leitos cada, além da construção de três maternidades, um hospital especializado no atendimento de idosos e novas estruturas de saúde em Manaus.

O anúncio, porém, levanta uma questão que vai além da disputa eleitoral: o Amazonas precisa de mais hospitais ou de uma rede hospitalar capaz de funcionar com médicos, equipamentos, medicamentos e atendimento especializado?

A resposta envolve os números da saúde pública, a distribuição geográfica das unidades e o próprio histórico administrativo de Omar Aziz, que governou o estado entre 2010 e 2014.

Quantos hospitais existem no Amazonas?

Dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), reunidos pela Fiocruz, apontam que o Amazonas possuía 137 estabelecimentos classificados na rede hospitalar em dezembro de 2025.

Desse total, 99 eram estabelecimentos públicos destinados ao atendimento pelo SUS. O levantamento também registra unidades privadas e instituições de diferentes perfis, incluindo hospitais gerais, especializados e hospitais-dia.

Embora os números demonstrem a existência de uma estrutura hospitalar considerável, eles não significam que todas as regiões tenham acesso aos mesmos serviços.

Outro dado ajuda a dimensionar a situação: o relatório de atividades do Governo do Amazonas de 2025 registrou 6.338 leitos vinculados ao SUS em setembro daquele ano, incluindo leitos de internação e complementares.

O principal problema, entretanto, está na distribuição dessa estrutura.

Um estudo publicado em 2026 sobre saúde coletiva na Amazônia, com base em dados anteriores, apontou que apenas 17 municípios do interior possuíam hospitais gerais no período analisado. Nos demais, predominavam unidades hospitalares de menor porte.

É justamente essa diferença que ajuda a explicar por que tantos moradores do interior ainda dependem de deslocamentos para Manaus.

O que Omar Aziz construiu quando foi governador?

Omar Aziz costuma apresentar sua experiência administrativa como argumento para justificar a viabilidade das novas promessas. Durante a campanha, afirmou ter construído e reformado mais de 20 hospitais.

Há registros históricos que comprovam entregas e investimentos durante sua gestão.

Em junho de 2011, Omar inaugurou o Hospital Regional Vó Mundoca, em Borba, destinado a atender também moradores de Novo Aripuanã e Manicoré.

Em janeiro de 2014, inaugurou um novo hospital em Silves, construído com investimento anunciado de aproximadamente R$ 5,1 milhões.

No mês seguinte, São Paulo de Olivença recebeu uma nova unidade hospitalar.

Em março daquele ano, foi inaugurado o Hospital Dra. Luiza da Conceição Fernandes, em Humaitá. O empreendimento, com investimento divulgado de R$ 9,7 milhões, substituiu a estrutura anterior e passou a contar com 52 leitos, além de equipamentos para exames de imagem.

Também durante a gestão de Omar houve a ampliação do Hospital Francisca Mendes, em Manaus, com expansão da assistência cardiológica pediátrica.

Outra obra de destaque foi o Hospital e Pronto-Socorro Delphina Aziz, na zona norte da capital. Sua construção foi iniciada durante o governo Omar, mas a primeira etapa foi inaugurada em junho de 2014, já na administração de José Melo.

Portanto, existem obras hospitalares efetivamente associadas à gestão do ex-governador. Entretanto, a afirmação de que ele construiu e reformou mais de 20 hospitais precisa ser acompanhada de uma relação detalhada que diferencie construções, reformas, ampliações e entregas concluídas por administrações posteriores.

Essa distinção é importante para avaliar com precisão seu histórico administrativo, sem desconsiderar as obras realizadas nem atribuir exclusivamente a um governo empreendimentos executados em diferentes gestões.

Quais municípios precisam de maior atenção?

O Amazonas possui 62 municípios distribuídos por um território de grandes dimensões, onde deslocamentos fluviais podem durar muitas horas ou até dias.

Um documento da Secretaria de Estado de Saúde, elaborado em 2025, aponta que menos de 30% dos municípios têm acesso terrestre e que os serviços de média e alta complexidade permanecem concentrados principalmente em Manaus.

Nesse contexto, municípios como Tabatinga, Tefé, Coari, Parintins, Itacoatiara, Humaitá, Manacapuru e São Gabriel da Cachoeira merecem atenção em qualquer discussão sobre regionalização hospitalar.

Essas localidades possuem importância estratégica pela localização e pelo atendimento a populações de municípios vizinhos. Isso não significa, necessariamente, que todas precisem de um novo hospital: em alguns casos, ampliar a capacidade e a complexidade das unidades existentes pode ser mais eficiente.

Também é necessário avaliar a assistência em regiões distantes, como as do Alto Solimões, Juruá, Purus e Madeira.

A escolha das cidades que receberiam novos hospitais deveria considerar critérios técnicos, incluindo população atendida, distância dos centros de referência, disponibilidade de profissionais, demanda reprimida e capacidade de manter os serviços.

Até agora, nas declarações examinadas sobre o debate de quinta-feira, não foi apresentada uma relação definitiva dos oito municípios contemplados.

O que exatamente Omar promete?

Durante o debate, Omar afirmou que pretende construir oito hospitais regionais com 150 leitos cada, equipados para oferecer atendimento especializado.

Caso as oito unidades sejam efetivamente construídas com essa capacidade, o projeto representaria 1.200 leitos planejados.

Na capital, o candidato também prometeu três maternidades, um hospital exclusivo para idosos, novas UPAs e policlínicas.

Em declarações anteriores, mencionou ainda a construção de um hospital geral em Manaus, com 200 leitos, e a criação de uma Central de Imagens e Diagnósticos.

Outra proposta envolve a realização de atendimentos em parceria com a rede privada para reduzir a espera por consultas, exames e cirurgias.

Segundo material divulgado pela própria campanha, mais de 159 mil pessoas aguardavam procedimentos na fila do SISREG, número que requer atualização e discriminação por tipo de atendimento.

Há, porém, um detalhe que merece esclarecimento: enquanto o material da campanha mencionava anteriormente sete hospitais regionais, no debate de quinta-feira o candidato anunciou oito.

A diferença exige uma atualização formal do planejamento, especialmente quanto aos municípios beneficiados, ao investimento necessário e ao cronograma de execução.

Construir hospitais é suficiente?

A experiência do Amazonas demonstra que a entrega de uma estrutura física não garante, por si só, atendimento à população.

Um hospital regional com 150 leitos exige equipes médicas, enfermagem, laboratório, serviços de imagem, medicamentos, manutenção, abastecimento e, dependendo do perfil assistencial, unidades de terapia intensiva.

Em municípios de difícil acesso, a contratação e a permanência de especialistas representam desafios adicionais.

Também existe uma diferença entre possuir um hospital e oferecer atendimento de média e alta complexidade. Uma unidade pode realizar internações clínicas e atendimentos básicos sem dispor de estrutura para cirurgias especializadas ou tratamentos complexos.

Por isso, a descentralização da saúde depende de uma rede organizada, com unidades capazes de resolver os problemas mais frequentes de cada região e encaminhar adequadamente os casos de maior complexidade.

O desafio não é apenas inaugurar prédios, mas assegurar que funcionem plenamente.

A experiência administrativa e o peso das novas promessas

Omar Aziz tem um histórico de obras na saúde que pode ser comprovado por registros de inaugurações e investimentos. Ao mesmo tempo, o fato de já ter governado o Amazonas torna legítima uma avaliação mais rigorosa sobre os resultados de sua administração.

É necessário saber quantos hospitais foram efetivamente construídos, quais apenas passaram por reformas, que serviços foram ampliados e quais limitações permaneceram depois das entregas.

Também cabe questionar por que determinados problemas estruturais, especialmente a dependência do interior em relação a Manaus, continuam presentes após sucessivas administrações estaduais.

No segundo turno, a adversária de Omar, Professora Maria do Carmo (PL), também defende a construção de hospitais, com a proposta de seis unidades no interior, além de melhorias nas estruturas existentes.

As duas candidaturas, portanto, reconhecem a necessidade de descentralizar a assistência. O que precisa ser demonstrado é a viabilidade das soluções apresentadas.

Mais importante do que a quantidade de hospitais anunciados é saber onde serão construídos, quanto custarão, quem trabalhará neles e quais atendimentos estarão disponíveis à população.

A poucos dias da eleição, marcada para domingo (25), essas são questões fundamentais para que o eleitor diferencie uma proposta tecnicamente estruturada de uma promessa de campanha.

Afinal, para quem espera meses por uma consulta, enfrenta longas viagens em busca de tratamento ou não encontra um especialista no próprio município, a medida de eficiência da saúde pública não é a quantidade de inaugurações, mas a possibilidade de receber atendimento adequado quando precisar.

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