Manaus | 2 de setembro de 2026 | 15:01:01

Não respondem aos fatos. Preferem destruir quem os revela

Existe uma forma de censura que não exige retirar uma notícia do ar. Quando uma revelação já não pode ser escondida, muda-se o foco dos fatos para a reputação de quem permitiu que eles viessem a público. A mensagem continua existindo, os documentos permanecem disponíveis e as perguntas seguem sem resposta, mas a sociedade passa a ser convocada a julgar o mensageiro.

É exatamente o que acontece agora. O Brasil conhece informações gravíssimas envolvendo Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes: mensagens, encontros, pedidos de ajuda, contratos milionários e contatos mantidos às vésperas da prisão do banqueiro. Antes que tudo isso seja devidamente explicado, porém, parte da mídia, das redes e da militância já direciona sua energia contra André Mendonça, relator que retira o sigilo do material e defende que o assunto seja discutido publicamente pelo Supremo.

Não demonstram que as mensagens são falsas nem esclarecem a natureza das relações reveladas. Apenas apresentam um novo vilão. Esse é um dos métodos mais antigos de manipulação da opinião pública: quando não conseguem destruir a mensagem, tentam destruir a credibilidade do mensageiro. O debate deixa de ser sobre documentos e passa a girar em torno de personagens. O cidadão já não é convidado a pensar, mas a escolher uma torcida.

Em pouco tempo, entram em cena os soldados fiéis. Eles não precisam ler o relatório, conhecer a sequência dos acontecimentos ou compreender o que está juridicamente em discussão. Recebem a narrativa pronta, o inimigo escolhido e a frase que deve ser repetida. Compartilham pedidos de impeachment, convocam manifestações e participam da destruição pública de uma reputação sem perguntar quem deixa de ser cobrado depois que o novo alvo aparece.

Nenhuma autoridade está acima de questionamentos. Mas questionar alguém é muito diferente de usar qualquer informação relacionada a essa pessoa como uma borracha capaz de apagar o que ela tornou público. O que não podemos aceitar é uma absolvição por distração: cria-se um novo escândalo para que ninguém precise responder ao anterior. Troca-se o personagem central, desloca-se a indignação e espera-se que a sociedade esqueça a pergunta original.

A mídia tem enorme responsabilidade nesse processo. Jornalismo não pode funcionar como braço emocional de grupos políticos, entregando mocinhos e vilões prontos ao público. Quando uma cobertura abandona as perguntas originais para ajudar a fabricar um inimigo conveniente, deixa de fiscalizar o poder e passa a administrar a indignação popular em benefício dele.

Não precisamos transformar André Mendonça em herói. O ponto é outro: o Brasil tem diante de si revelações que exigem respostas e, enquanto elas não chegam, uma força impressionante se movimenta para mudar o assunto. Por isso, sempre que um novo inimigo for apresentado com urgência, observe quem deixou de ser questionado. A reputação do mensageiro pode ser atacada, mas isso não transforma um fato verdadeiro em mentira. Quando tentam destruí-lo, quase nunca é porque a mensagem perdeu importância. É porque ela está incomodando agora.

Érika Passos
Jornalista

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