O que está em curso contra Jair Bolsonaro ultrapassa a esfera jurídica e mergulha no campo político com todas as letras. A decisão de Alexandre de Moraes de impor vigilância policial 24 horas e manter o ex-presidente de tornozeleira eletrônica é um daqueles momentos em que a Justiça parece vestir a armadura da política e o país inteiro paga a conta.
Não se trata aqui de inocentar ou culpar, mas de olhar com lupa para a forma como as instituições se movem. A lei brasileira não prevê esse tipo de “cautelar criativa”. Vigilância permanente em residência não está no Código de Processo Penal. É uma medida excepcional, inédita, e que escancara a elasticidade com que alguns ministros do Supremo têm interpretado sua própria autoridade.
E o que se diz como justificativa? O risco de fuga. O detalhe é que esse “risco” se sustenta num rascunho de pedido de asilo à Argentina encontrado no celular de Bolsonaro: um documento não protocolado, sem efeito jurídico, sem sequer configurar ato concreto. Mesmo assim, foi suficiente para transformar o ex-presidente em alvo de um cerco custoso, que mobiliza dezenas de policiais, gera transtornos a vizinhos e drena recursos públicos.
Mas o que realmente está em jogo não é a logística do policiamento. É a narrativa. Bolsonaro está sob silêncio forçado: sem redes sociais, sem entrevistas, sem diálogo com aliados estratégicos, nem mesmo com o próprio filho Eduardo, nos Estados Unidos. A mensagem é cristalina: neutralizar o principal nome da direita antes de 2026.
Esse é o ponto em que o direito se converte em arma política, o que no mundo jurídico se chama de lawfare. E aqui não há meias-palavras: o PT pede, a PGR avaliza, Moraes concede. Se fosse a Lava Jato, e se fosse contra Lula, o escândalo seria global. Agora, a mesma engrenagem opera sem constrangimento.
O efeito colateral? Transformar Bolsonaro, mais uma vez, em mártir para sua base. O eleitorado que já se sente perseguido pelo sistema encontra no cerco policial a prova concreta de que há uma guerra em andamento. A Justiça pode até mirar em um homem, mas acaba incendiando o campo político inteiro.
E quando o Judiciário ultrapassa o limite da lei para alcançar objetivos políticos, cria um precedente perigoso. Porque hoje é Bolsonaro. Amanhã, pode ser qualquer liderança que incomode. A fronteira entre Justiça e política, mais uma vez, está borrada, e quem paga a conta, no final, é a democracia.






