Manaus | 4 de junho de 2026 | 06:18:08

De autora da denúncia a herdeira da vaga: o movimento silencioso de Glória Carrate para assumir o lugar de Elan Alencar na Câmara

Na decisão assinada pelo juiz Rafael Rodrigo da Silva Raposo, da 62ª Zona Eleitoral de Manaus, foram anulados todos os votos da chapa proporcional do DC nas eleições de 2024. O motivo: fraude à cota de gênero, com uso de candidaturas femininas fictícias para simular o cumprimento do percentual mínimo de 30% de mulheres, como exige a legislação eleitoral.

No centro da acusação está o nome de Joana Cristina França da Costa, cuja candidatura foi considerada inválida por falta de filiação partidária e inelegibilidade. Mesmo ciente da situação, o partido teria mantido seu nome na chapa apenas para simular o cumprimento da cota, segundo o juiz. Para completar, outro candidato, Wallace Fernandes Oliveira, foi registrado no sistema como mulher, o que elevou artificialmente o índice feminino para 30%. Após correção, o percentual caiu para 28,57%, o que tornou toda a chapa irregular.

O Ministério Público Eleitoral deu parecer favorável à ação, e a Justiça entendeu que houve “conduta deliberada de burla à legislação”, resultando na cassação do mandato de Elan Alencar, na anulação dos votos do DC e na inelegibilidade de Joana França por oito anos.

Mas o que chama atenção nos bastidores é o nome que desponta como possível herdeira da vaga: Glória Carrate. Com 24 anos de trajetória na Câmara e seis mandatos consecutivos, ela não se reelegeu em 2024, mesmo tendo obtido mais de 6 mil votos. No entanto, como suplente da coligação que se beneficiaria do recálculo do quociente eleitoral, ela aparece como provável substituta direta de Elan — caso a decisão seja mantida em instância superior.

Mais do que uma consequência jurídica, a movimentação é vista por muitos como estratégica. Carrate, ao lado de Marcelo Serafim e Elissandro Bessa, não apenas denunciou a chapa adversária, como agora pode ocupar o espaço deixado pelo vereador cassado. Para aliados, trata-se de uma reparação legítima. Para críticos, o episódio carrega os elementos de uma jogada política silenciosa, mas precisa.

O caso ainda cabe recurso, mas enquanto isso, a possibilidade de Glória reassumir a cadeira que ocupou por mais de duas décadas já gera movimentação nos bastidores do Legislativo municipal.

Na mesma decisão, o juiz rejeitou outras duas ações semelhantes que acusavam fraude à cota de gênero por parte da Federação Fé Brasil (PT/PCdoB/PV) e do partido Agir. Os vereadores Zé Ricardo (PT), Jaildo Oliveira (PV), Dione Carvalho, Rosinaldo Bual e João Paulo Janjão (Agir) mantêm seus mandatos.

Em paralelo, o caso reforça um precedente relevante: em 2023, o próprio TRE-AM já havia cassado o vereador Antônio Peixoto (Agir) por fraude à cota, em ação proposta por Isaac Tayah, que acabou herdando a vaga. Na ocasião, o tribunal aplicou a Súmula 73 do TSE, que considera indicativos como votação inexpressiva e ausência de campanha como elementos para configurar candidaturas fictícias.

A dúvida agora não é mais se Elan cairá — isso já aconteceu. A questão é: Glória Carrate volta? E com ela, o que mais retorna? A força política de um nome que já esteve no centro do poder municipal — ou a memória de uma manobra cuidadosamente calculada?

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