Manaus | 23 de julho de 2026 | 11:08:27

Diagnóstico de endometriose pode ficar mais rápido com teste de saliva

Um teste de saliva capaz de diagnosticar a endometriose com rapidez e precisão começou a ser reembolsado pelo governo francês neste mês, em caráter experimental. A medida beneficia cerca de 25 mil mulheres acima dos 18 anos e representa um passo importante na busca por um diagnóstico mais rápido e menos invasivo da doença — que, hoje, pode levar até nove anos para ser identificada.

Disponível em 80 hospitais franceses participantes do estudo, o Endotest — desenvolvido pela biofarmacêutica Ziwig — custa € 839 (cerca de R$ 5.100) e fornece o resultado em até 10 dias. A decisão da Autoridade Nacional de Saúde da França de autorizar o reembolso baseia-se nos resultados clínicos iniciais, que apontam sensibilidade de 96% e especificidade de 95% na detecção da doença.

A endometriose é caracterizada pelo crescimento do tecido semelhante ao endométrio fora do útero, o que pode causar cólicas severas, dores pélvicas crônicas, desconforto durante as relações sexuais e, em alguns casos, infertilidade. Apesar de atingir uma em cada dez mulheres, o diagnóstico segue desafiador devido à inespecificidade dos sintomas, à normalização da dor e à escassez histórica de investimento em pesquisas sobre saúde feminina.

O Endotest surgiu após a descoberta de uma assinatura molecular da doença, baseada em microRNAs identificados na saliva, com auxílio de inteligência artificial. Um estudo publicado em 2023 na revista científica New England Journal of Medicine Evidence mostrou que o teste conseguiu distinguir com 97% de precisão as pacientes com endometriose daquelas com dor pélvica causada por outras condições.

Apesar do otimismo, especialistas alertam para limitações importantes. Márcia Mendonça Carneiro, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada da Febrasgo, ressalta que a eficácia do teste pode variar conforme a etnia, já que os microRNAs apresentam diferenças entre populações. Ela defende que o teste seja validado em uma amostra maior e mais diversa, com inclusão de pacientes assintomáticas e de diferentes regiões do mundo.

Outro ponto sensível é o financiamento do estudo, feito pela própria empresa que desenvolveu o teste. Alguns autores da pesquisa também são consultores da farmacêutica, o que, segundo especialistas, reforça a necessidade de estudos independentes para confirmar os dados.

Além disso, o alto custo do exame é visto como um entrave à sua implementação em larga escala. Para o médico Marcos Tcherniakovsky, da Sociedade Brasileira de Endometriose, o teste é promissor, mas ainda inacessível. “Hoje, temos ultrassonografia com preparo intestinal e ressonância magnética que já oferecem diagnóstico com boa precisão e são cobertos por planos de saúde. O teste de saliva só será efetivo se for acessível a todas”, pontua.

Apesar das ressalvas, especialistas veem com bons olhos a busca por um diagnóstico precoce e não invasivo para a endometriose. Tentativas anteriores com exames de sangue não avançaram devido à falta de financiamento. Para o ginecologista Patrick Bellellis, colaborador do Hospital das Clínicas da USP, o problema é estrutural: “Ainda faltam instituições e agências de fomento que priorizem a saúde da mulher”.

Dados mostram o desequilíbrio nos investimentos em pesquisa: nos Estados Unidos, a endometriose recebe cerca de US$ 16 milhões anuais, enquanto a doença de Crohn, que atinge uma em cada 100 pessoas, recebe US$ 90 milhões.

A esperança, agora, é que o sucesso do estudo francês abra caminho para ensaios clínicos internacionais, tornando o teste mais confiável, inclusivo e, futuramente, acessível — um possível divisor de águas na luta contra uma das doenças femininas mais negligenciadas da história.

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