Manaus | 4 de junho de 2026 | 07:41:33

AVC em crianças pode aumentar risco de ansiedade e depressão

Sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) na infância, especialmente entre os oito e nove anos, pode elevar o risco de desenvolver ansiedade, depressão e sintomas físicos como dores de cabeça e estômago. A conclusão é de um estudo preliminar que será apresentado na Conferência Internacional de AVC 2025, da American Stroke Association, que acontece de 5 a 7 de fevereiro, em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Os pesquisadores destacam que a relação entre AVC isquêmico infantil — o tipo mais comum — e transtornos de saúde mental ainda não é totalmente compreendida.

“Nossa análise mostrou que desafios psicológicos ocorrem em uma taxa maior entre jovens sobreviventes de AVC do que na população geral”, afirma Nomazulu Dlamini, neurologista do The Hospital for Sick Children em Toronto, Canadá, e coautor do estudo. “Os sintomas psicológicos muitas vezes são subestimados em crianças. Queríamos identificar quais grupos correm mais risco e como poderíamos intervir para melhorar sua saúde mental e qualidade de vida.”

Pesquisadores do The Hospital for Sick Children conduziram uma análise retrospectiva com 161 crianças que sofreram um AVC isquêmico entre 2002 e 2020. Os participantes foram acompanhados desde a infância até a fase adulta.

Entre os 5 e 17 anos, essas crianças responderam a questionários sobre sintomas de depressão, ansiedade e dores crônicas. As pontuações obtidas foram comparadas com dados da população pediátrica geral.

Os resultados mostraram que:
• 13% dos sobreviventes de AVC apresentavam depressão;
• 13,7% sofriam com ansiedade;
• 17,4% relataram sintomas de somatização — quando conflitos emocionais resultam em dores físicas.

Além disso, as crianças que manifestaram somatização tinham, em média, mais de dois anos de idade no momento do AVC.

Os pesquisadores sugerem que as sequelas psicológicas podem ser tão desafiadoras quanto os impactos físicos do derrame.

“Essas crianças recebem alta após a recuperação, mas os pais continuam relatando dificuldades significativas na saúde mental. O estudo alerta para o risco persistente de transtornos psicológicos ao longo do tempo”, explica Jennifer Crosbie, psicóloga do The Hospital for Sick Children. “Nosso objetivo é conscientizar os pais para que possam buscar ajuda o quanto antes. Quanto mais cedo a intervenção, melhores os resultados.”

Para Heather J. Fullerton, professora de Neurologia e Pediatria e copresidente da Declaração Científica de 2019 da American Heart Association sobre Gestão de AVC em Neonatos e Crianças, a relação entre AVC infantil e transtornos psicológicos já era esperada. No entanto, a alta prevalência de somatização foi um achado surpreendente.

“Muitas crianças pequenas manifestam ansiedade na forma de dores de estômago e desconforto físico, e esse problema é subestimado”, afirma Fullerton, que não participou do estudo. “Os profissionais de saúde devem estar atentos a esses sinais e incluir o rastreamento de transtornos mentais nos acompanhamentos de sobreviventes de AVC infantil.”

Apesar dos achados relevantes, os pesquisadores reconhecem algumas limitações do estudo. A análise foi conduzida em um único hospital, e as pontuações de saúde mental foram baseadas exclusivamente em questionários, sem avaliações clínicas detalhadas.

Por isso, novos estudos são necessários para confirmar a relação entre AVC infantil e transtornos psicológicos, além de orientar estratégias mais eficazes de acompanhamento e intervenção.

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