Manaus | 23 de julho de 2026 | 18:48:07

Intolerância religiosa: Denúncias crescem mais de 80% e maioria das vítimas são mulheres

O crescimento da intolerância religiosa no Brasil tem se mostrado alarmante. Dados do Disque 100, canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos, revelam que de janeiro a junho de 2024 houve um aumento de 80% nas denúncias relacionadas à liberdade religiosa em comparação ao mesmo período de 2023. Enquanto no primeiro semestre do ano passado foram registradas 681 denúncias, neste ano o número saltou para 1.227, uma média de quase sete casos por dia.

Além disso, em apenas seis meses, as denúncias já representam quase o total registrado durante todo o ano passado, que somou 1.482 ocorrências. Os números escancaram a persistência de atos de violência que vão desde comentários discriminatórios e destruição de templos até agressões físicas e assassinatos.

Perfil das vítimas

O levantamento do Ministério dos Direitos Humanos destaca que 60,5% das vítimas são mulheres, muitas delas negras. Mais da metade das denúncias (647) foi cometida contra pessoas pretas ou pardas, o que evidencia a conexão entre intolerância religiosa e racismo.

Outros dados do perfil das vítimas incluem:

  • 32,4% são homens;
  • 0,24% são intersexo;
  • 6,84% não informaram ou não declararam o gênero.

As religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, continuam sendo as principais alvos de discriminação. Para Fábio Mariano, diretor de Promoção dos Direitos Humanos do ministério, o discurso de ódio é intencionalmente dirigido para desumanizar esses grupos. “Esses ataques refletem preconceitos históricos e estruturais que precisamos combater com urgência”, ressalta.

Cidades com mais denúncias

O Rio de Janeiro (RJ) lidera o ranking de denúncias com 147 casos registrados, seguido por São Paulo (SP) com 115 denúncias, Brasília (DF) com 60 denúncias, Salvador (BA) com 44 denúncias e Manaus (AM) com 43 denúncias. As capitais brasileiras concentram boa parte das violações, mas o problema é nacional.

Curiosamente, 46,2% das ocorrências acontecem na própria casa da vítima, evidenciando que o preconceito pode vir de círculos próximos, como vizinhos ou familiares. Já 8% dos casos foram registrados no ambiente virtual, revelando a expansão do ódio religioso para as redes sociais.

O Observatório Nacional dos Direitos Humanos (ObservaDH) também destacou um aumento significativo de crimes de intolerância religiosa na internet, com denúncias triplicando em seis anos, passando de 1,4 mil em 2017 para 4,2 mil em 2022.

Caminhos para o combate

Para enfrentar esse problema, o Ministério dos Direitos Humanos está ampliando ações educativas e promovendo campanhas de conscientização. A denúncia segue sendo uma ferramenta crucial. O Disque 100 e o aplicativo Direitos Humanos Brasil são canais disponíveis para registrar violações, garantindo anonimato e atendimento 24 horas.

Especialistas reforçam a importância de ações integradas entre governo, sociedade civil e lideranças religiosas para promover o respeito e reduzir os números alarmantes. Como destacou Mariano, “O combate à intolerância religiosa exige a desconstrução de preconceitos históricos e um esforço coletivo para garantir que a liberdade religiosa seja respeitada em todas as esferas.”

O crescimento das denúncias é um reflexo tanto do aumento da intolerância quanto da maior disposição das vítimas em expor os casos. Contudo, é essencial que o Brasil avance em políticas públicas e no fortalecimento da educação para garantir a convivência pacífica entre diferentes crenças.

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