Sob os jardins e a arquitetura de inspiração inglesa da Praça Dom Pedro II, no Centro Histórico de Manaus, repousa uma memória ancestral que resiste ao tempo. Em 2003, escavações revelaram urnas funerárias de povos indígenas que habitavam a região antes da chegada dos colonizadores. Para a historiadora Izabel Cristine, indígena da etnia Munduruku, essa descoberta é uma oportunidade de afirmar a presença indígena na capital, cuja identidade ainda é pouco visível na sociedade manauara.
“Isso mostra que Manaus é uma grande aldeia, porque a presença indígena nesta cidade vem muito antes daquilo que o colonizador chamou de Manaus. Quando a gente fala de memória nesse sentido, estamos falando também de uma memória ancestral. Nossas histórias são histórias sequestradas”, afirmou Izabel.
A Praça, nomeada em homenagem ao centenário de Dom Pedro II em 1925, combina linhas orgânicas de jardins com influência francesa, contrastando com sua arquitetura de traços ingleses. Entretanto, sua verdadeira riqueza está nos vestígios da ocupação indígena que datam de muito antes da formação colonial.
Beatriz Calheiros, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Amazonas, reforça a importância de olhar para Manaus por outro viés histórico. “Quem estava antes, como era, a nossa origem? É preciso reconhecer que a cidade foi construída também pela presença e cultura indígenas.”
Desde 2015, a Praça Dom Pedro II tem sido palco do Festival Sou Manaus Passo a Paço, que reúne milhares de pessoas em uma celebração da música, gastronomia e artes. Contudo, os historiadores e arqueólogos defendem que o local é muito mais do que um espaço cultural contemporâneo: ele é um ponto de partida para entender a verdadeira origem da cidade.
As urnas funerárias descobertas estão preservadas em exposições no Museu Arqueológico da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e no Museu da Amazônia (Musa), conectando os manauaras com suas raízes. Ao mesmo tempo, as sinalizações na praça, adicionadas após sua revitalização em 2020, indicam o local das escavações, simbolizando a fusão entre passado e presente.





