Notícia fake teve origem em estudo que sugere que o ácido tânico, presente na bebida, poderia reduzir a infecção provocada pelo Sars-CoV-2.

A notícia de que o consumo de vinho ajudaria a combater o coronavírus pode ter deixado muitos fãs da bebida animados, mas a informação não é verdadeira. O rumor surgiu a partir de um estudo da China Medical University publicado na revista especializada American Journal of Cancer Research, em dezembro de 2020.

O trabalho sugere que seis compostos naturais, inclusive o ácido tânico, presente em abundância no vinho, poderiam diminuir a atividade do vírus Sars-CoV-2, reduzindo a gravidade da infecção em até 90%.

Uma nota divulgada pela Federação Espanhola de Enologia em abril de 2020 também impulsionou boatos semelhantes. Os autores do texto afirmaram que “o consumo moderado de vinho, responsável, pode contribuir para uma melhor higiene da cavidade bucal e da faringe, esta última uma zona que abriga os vírus”.

De acordo com Ana Helena Germoglio, infectologista do Hospital Águas Claras, a fama de que o vinho seria um aliado no combate à infecção também pode ter se baseado em conhecimentos prévios sobre o resveratrol, composto encontrado nas sementes de uva. “No passado, este composto mostrou inibição sobre a infecção por Mers-Cov [agente etiológico da síndrome respiratória do Oriente Médio]. Mas até hoje não há pesquisas que comprovem a ação do composto no Sars-CoV-2”.

A especialista alerta, ainda, que além de não ajudar a destruir o coronavírus, o consumo de álcool provavelmente aumenta os riscos de complicações entre quem adquire a Covid-19 e bebe de forma exagerada.

“Apesar de o álcool, em concentrações adequadas, funcionar como desinfetante de mãos e superfícies, ele não tem esse efeito quando ingerido. Não mata o vírus na boca e na garganta nem oferece nenhum tipo de proteção contra a Covid-19, além de ter efeito nocivo sobre o sistema imunológico”, reforça a especialista.

Para quem ainda tem dúvidas de que o vinho não ajuda a combater a Covid-19, Germoglio frisa que já existem diversos artigos científicos mostrando os efeitos negativos do álcool na resposta imune à infecção. “Nas pessoas que fizeram uso crônico de bebida alcoólica, houve redução da imunidade contra infecções virais e bacterianas”, detalha a médica.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça as orientações da infectologista. Segundo o órgão, o consumo de qualquer tipo de álcool não previne ou cura o coronavírus (ou qualquer outra doença). O consumo em excesso, na verdade, está associado ao enfraquecimento do sistema imunológico, que perde parte de sua capacidade de combater diversas doenças, inclusive as infecciosas, como a Covid-19.

Fonte: Metrópoles