Em todo o país, iniciativas protagonizadas por comunidades oferecem uma imersão na cultura local, um importante pilar do turismo sustentável.

Mais do que partir de um lugar para outro, as viagens são uma ferramenta essencial para extrair o que de mais autêntico um lugar tem a oferecer. Se a máxima popular diz que viajar te torna mais rico, a grandeza das experiências certamente vem das trocas que o contato com outras culturas é capaz de proporcionar.

Quem melhor para oferecer esse tipo de vivência em um convite irrecusável a mergulhar na cultura do lugar que a comunidade que vive ali? Com essa premissa, o Turismo de Base Comunitária (TBC) vem ganhando cada vez mais espaço, uma alternativa ao modelo convencional em que comunidades tradicionais são protagonistas e compartilham com os visitantes suas histórias, sabores, ritmos e ritos.

Um dos exemplos do turismo comunitário próximo ao DF, a Cachoeira Santa Bárbara, cartão-postal da Chapada dos Veadeiros, será reaberta para os visitantes na próxima segunda-feira (21/6). O atrativo fica na região do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, e vai voltar a receber visitantes após cerca de um ano e quatro meses fechado para evitar a propagação da Covid-19.

A decisão de reabrir o território quilombola foi tomada com base no avanço significativo da vacinação da comunidade, formada, em sua maioria, por idosos, mais vulneráveis ao coronavírus, e afrodescendentes que vivem na região desde o século 19.

Tempos difíceis

Nesse período, os moradores da comunidade Kalunga, além de sentirem a sensação de abandono e os efeitos da preocupação com a doença, se uniram a tantas outras comunidades brasileiras que sofreram com a falta do turismo como complementação da renda.

O agricultor quilombola e guia de turismo da região, “Seu” Calisto de Sousa Santos, de 50 anos, conta que o período da pandemia foi angustiante para a comunidade.

“Foi uma época muito ruim para nós, essa doença pegou a gente de surpresa. Tivemos que ficar trancados, as coisas que a gente tinha pra vender ficaram paradas, o turismo, uma das nossas fontes de renda, acabou”, lamenta.

Graças à agricultura familiar, a comida no prato foi garantida. Porém, outras contas, como luz e água, ficaram pendentes, e as crianças também tiveram dificuldade de estudar, por conta da falta de internet.

“A gente sempre vai ter medo dessa doença, porque ela é muito perigosa, mas receber turistas é uma fonte de renda importante para a comunidade”, afirma. “Se não abrir, vamos continuar passando por essas dificuldades”, conclui.

Em outro canto do país, o guia de turismo da Chapada das Mesas, Ueliton Espíndola, 38, está se mobilizando com apoio de outros guias locais para implementar a modalidade na região onde mora. “A ideia é que os visitantes convivam também com os nativos que nasceram dentro do Parque Ecológico, e provem nossas comidas típicas, conheçam nossas histórias e durmam nessas casas, como nós”, explica.

Além de estimular o desenvolvimento econômico local, que muitas vezes conta com poucas alternativas de geração de trabalho e renda, esse tipo de iniciativa contribui com a preservação da riqueza histórica e cultural, dos modos de vida, costumes e valores daquela população.

Pilar da sustentabilidade

Em entrevista ao Metrópoles, o ministro do Turismo Gilson Machado Neto enfatiza que o turismo de base comunitária “é um dos segmentos essenciais para o nosso país”.

“Possuímos uma ampla diversidade cultural em todo o território, além de proporcionar uma interação anfitrião-visitante, cuja participação é significativa para ambos e gera benefícios econômicos, emprego e renda para a população, e de conservação e renda para as comunidades e para o meio ambiente local”, completa.

Além da preservação da cultura, a proposta também prioriza a conservação ambiental e serve de exemplo em termos de preservação dos recursos naturais nessas regiões. Tamanha beleza dos atrativos certamente é resultado do cuidado primoroso que esses moradores dedicam para proteger a natureza.

Esse tipo de experiência é voltada principalmente para atender à demanda de viajantes que procuram alternativas menos padronizadas e com mais imersão cultural, e que se preocupam com responsabilidade social e ambiental, na visão do ministro. “Ele respeita as heranças culturais e tradições locais e promove o diálogo e a interação entre visitantes e visitados”, afirma.

Experiências de vida

É experimentando sabores, ouvindo histórias, trilhando os mesmos caminhos e se tornando um personagem daquele destino que a vivência se torna tão marcante a ponto de se virar parte de quem você é. Cada vez mais, os viajantes têm percebido o potencial dos destinos para oferecer muito mais que um check-in novo, e sim momentos que permitam se conectar com o lugar visitado.

Angela Scherer, 38, acredita que nenhum outro roteiro “badalado” no mundo, recheado de pontos turísticos, vale tanto a pena quanto uma experiência de turismo comunitário. “Em uma viagem normal você vai fazer o básico, vivenciar o básico. Eu acho que o que há de mais interessante nesse tipo de turismo é a transformação que isso causa em ti. Você chega achando que vai ensinar alguma coisa, e descobre que na verdade, vai aprender”, opina a gaúcha.

A servidora pública coleciona carimbos no passaporte, porém, conta que agora mantém o foco nesse tipo de viagem que “transforma e faz você repensar atitudes”. Na visão dela, “não há nada que pague esse tipo de experiência”, assegura.

Quando eu estava em uma comunidade na Amazônia, a frase de uma criança me marcou muito. Eles passam boa parte do ano com o território inundado, e quando eu perguntei: ‘Como vocês conseguem viver desse jeito por seis meses todo ano?’, a resposta de um menino foi: ‘E eu não sei como você consegue viver em uma selva de pedra’”.

Com o início da vacinação, o retorno gradual dos turistas nesse território voltará a ser permitido. Porém, enquanto a pandemia ainda não for controlada no país, a recomendação é que viagens de turismo não essenciais sejam postergadas. Para proteger essas comunidades, muitas vezes vulneráveis, o momento pede muita cautela.

Além disso, “é importantíssimo que os turistas que pratiquem esse tipo de vivência nas comunidades tenham consideração pela importância desse território para aquela população, que sigam as restrições das prefeituras, os protocolos da reabertura e sejam sempre conscientes e respeitosos”, pondera Ana Paula Jacques, pesquisadora do Laboratório de Estudos de Turismo e Sustentabilidade da Universidade de Brasília (UnB).

Onde encontrar

Para viver experiências enriquecedoras, não é necessário fazer um trabalho voluntário fora do país. É possível encontrar opções acessíveis para incluir a comunidade local em qualquer roteiro de viagem — priorizando hospedagens de nativos, guias de turismo e passeios com eles.

No Distrito Federal e arredores, existem algumas iniciativas incríveis que fomentam a cultura da região. As vivências também se estendem de norte a sul do país.

Fonte: Metrópoles