Postar uma foto de viagem não tem mais o mesmo esplendor. Movimento reacende debate sobre publicações na internet durante a pandemia.

Desde o início da pandemia, você se sentiu desconfortável em fazer algum tipo de postagem nas redes sociais? Se a resposta for sim, você não está sozinho. Com tantas notícias ruins, perdas e a curva de contágio ainda em alta, mesmo para quem cumpre as regras de distanciamento e uso de máscaras, uma simples foto de viagem pode causar uma enxurrada de críticas e comentários ofensivos on-line.

O fenômeno é recorrente e ganhou nome próprio: travel shaming, ou constrangimento por viajar (em tradução livre). O termo foi criado para designar o ato de expor ou criticar publicamente algum viajante, geralmente nas redes sociais, por ostentar uma conduta considerada reprovável.

No caso de turistas que não respeitam as restrições impostas, o caso é ainda mais sério. A “sentença” do tribunal da internet atinge não apenas os indivíduos que publicam os registros, mas os hotéis e pontos turísticos que surgem nas imagens também podem ser interpretados por futuros clientes como locais que não respeitam as regras sanitárias, favorecendo a proliferação da Covid-19.

O objetivo do travel shaming é identificar, criticar e expor as ações que estejam fora do que se estabelece como a forma mais apropriada de agir diante da crise sanitária criada pela pandemia.

Ou seja, o problema afeta não apenas quem desrespeita as restrições de segurança. Também se reflete em todo o setor, que engloba desde pontos turísticos, redes de hotelaria, restaurantes e até destinos.

Respeito ao isolamento

Na era do cancelamento, o tema ganhou ainda mais visibilidade com as críticas às personalidades da internet ou celebridades que descumpriram o isolamento e viajaram durante a pandemia.

A atriz Bruna Marquezine, defensora do distanciamento social nas redes, foi duramente criticada por uma viagem de Ano-Novo com um pequeno grupo de amigos em uma ilha particular em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Ela se defendeu, dizendo que “está em paz e que não fez nada grave, nem colocou a vida de ninguém em risco”.

Na onda das celebridades, a atriz Mariana Rios se envolveu em mais uma polêmica ao compartilhar duas imagens dentro de um avião, usando máscara de proteção facial contra o coronavírus, com intuito de divulgar uma empresa de passagens aéreas.

Em outro caso recente, o jogador brasileiro Marcelo, do Real Madrid, chamou a atenção negativamente dos internautas por postar uma foto com a família em uma praia em Valencia, na Espanha. Todos estavam sem máscara. Ele  foi multado em cerca de R$ 18 mil pelo Departamento de Justiça da cidade por furar o bloqueio imposto.

Fiscais da quarentena

De acordo com a psicóloga Mariane Abreu, essa fiscalização não é novidade no universo digital. Contudo, as críticas eram veladas, porque o que alguém fazia antes da pandemia não era responsabilidade de outros nem causava reflexos em outras pessoas de forma direta.

“Agora, no entanto, se outra pessoa decide não usar máscara, se aglomerar ou tiver comportamentos inadequados, essas práticas influenciam na vida do outro. A partir do momento que você expõe esse tipo de comportamento e apoia isso deliberadamente nas redes sociais, as pessoas, além de fiscalizarem o comportamento alheio, tendem a cobrar de alguma forma o que elas consideram certo para o momento”, considera.

Essa prática também pode inibir as postagens. “É natural que as pessoas decidam agir de forma a evitar o desconforto. Então, ao considerar fazer uma postagem sobre algo que geraria uma crítica, um questionamento, ou que geraria um contato com consequências negativas, a tendência seria deixar de postar”, explica a psicóloga.

As redes sociais passaram a desempenhar um papel importante na construção de algumas opiniões e posicionamentos, como pondera Ana Carolina Fusquine, vice-Presidente de hotéis da empresa de marketing Pmweb.

“Ao mesmo tempo em que algumas postagens podem ser avaliadas como negativas, também existe o lado de ser um canal importante para se deixar claro os cuidados que são tomados, para que o segmento de turismo e hotelaria transmita essa segurança e se posicione sobre as medidas tomadas”, completa.

De acordo com Deborah Bezerra, analista de crescimento na Carpediem Homes, empresa de turismo e aluguéis de temporada, a mudança na pandemia criou novas tendências para o segmento. “A procura por hospedagens de isolamento, em locais mais tranquilos e distantes dos centros urbanos, permitiu que o setor continuasse a manter suas atividades em funcionamento de forma segura”.

Baque no turismo

Entre todas as adversidades que colocaram o período desde 2020 como um dos mais atípicos da história da humanidade, não é exagero dizer que o setor do turismo enfrentou um cenário sem precedentes. Países fecharam as fronteiras, pontos turísticos foram interditados e os riscos de contaminação foram considerados altos demais para viajar.

Os prejuízos foram tamanhos que, segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT), o segmento pode levar de cinco a sete anos para se recuperar. Um levantamento da organização, divulgado no fim do ano passado, registrou uma queda de 900 milhões no fluxo de viajantes internacionais comparando 2020 a 2019. O prejuízo estimado gira em torno de 1,1 trilhão.

No Brasil, o setor registrou perdas de R$ 261 bilhões, segundo dados da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Quando se fala em viagens, uma enorme cadeia produtiva foi desestabilizada – desde companhias aéreas e empresas de hotelaria até pequenas comunidades que dependem do fluxo turístico para sua subsistência.

Novo olhar

Como uma “pausa” em um processo de aceleração constante, a pandemia nos fez repensar hábitos de consumo como uma questão de sobrevivência enquanto humanidade.

O que se averiguou, como resultado da pandemia, “foi um aumento da compreensão das pessoas sobre os impactos que nossas ações podem provocar no meio ambiente e nas comunidades locais”, destaca Luiz Cegato, gerente de Comunicação da Booking.com para a América Latina.

De acordo com levantamento da empresa, 71% dos brasileiros querem viajar de forma mais sustentável no futuro, com uma conscientização ainda maior esperada a partir de 2021. Mas, o sonho de desbravar novos roteiros permanece.

Em levantamento realizado pela plataforma de viagens, questionados sobre o que preferem vivenciar ainda este ano, quase 3 em cada 4 (74%) brasileiros disseram que preferem viajar a encontrar o verdadeiro amor. Além disso, 62% dos entrevistados no Brasil preferem fazer uma viagem em vez de comprar um carro.

Fonte: Metrópoles