Como se diz no jargão político, o senador Eduardo Braga (MDB-Amazonas) bem que tentou, mas não conseguiu colocar o jabuti na árvore. Como relator da nova Lei do Gás Natural, quis incluir um capítulo inteiro para beneficiar usinas termelétricas estacionárias, com o pretexto de que estas podem contribuir para levar energia elétrica à base de gás para capitais brasileiras onde ainda não há a oferta desse tipo de energia.

A proposta do senador, aparentemente ‘’inocente e revestida de espírito público’’, causou estranheza e resistência da própria indústria do segmento de energia e do Governo Bolsonaro, que defende a aprovação da versão original do Projeto de Lei. O PL vindo da Câmara dos Deputados é a aposta do Governo Federal para reduzir o preço do gás natural, atrair investimentos, aumentar a competição e evitar monopólios.

Ao priorizar as usinas termelétricas estacionárias, alimentadas à gás por gasodutos que já têm licença ambiental, o que a emenda do senador Eduardo Braga não faria seria justamente abrir o mercado para outras empresas explorarem o segmento. Isso porque, conforme revelou o Jornal Estadão, das 11 estruturas licenciadas no País, seis são de empresas que pertencem ou estão ligadas ao empresário Carlos Suarez.

Carlos Suarez é um empresário baiano, velho conhecido de Eduardo Braga, com forte presença na economia do Estado, ainda que de forma obscura. Ele é o acionista majoritário da Companhia de Gás do Amazonas (Cigás), criada pelo Governo do Amazonas para distribuir e comercializar o gás natural explorado na província petrolífera de Urucu, em Coari. Por causa da manobra para beneficiar o empresário baiano, Eduardo Braga foi duramente criticado.

A deputada federal por São Paulo, Carla Zambelli, disse, em uma rede social: ‘’Qual o sentido, senador Eduardo Braga, em desfigurar o PL original do gás, que veio redondinho da Câmara, para beneficiar um empresário que já detém 77% dos km de gasodutos com licenciamento ambiental? Como reduzir os preços com mais monopólio?’’. Com centenas de comentários, muitos foram na mesma linha da postagem feita por Zambelli.

Em entrevista ao Estadão, o presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores de Energia (Abrace), Paulo Pedrosa, criticou o teor do relatório, do senador Eduardo Braga. “Essa lei exemplifica bem o momento que vivemos. O Brasil dos subsídios e dos monopólios resiste ao Brasil da eficiência e da competição’’.

Na disputa para a nova presidência do Senado, Eduardo Braga chegou a figurar entre os que podem disputar o comando da Casa pelo MDB, partido de maior bancada. Logo após o nome do senador amazonense ser veiculado como potencial candidato, foi descartado pelo próprio MDB. Pensam contra o senador amazonense a fama de truculento e por ser investigado na operação Lava Jato. O nome preferido do Planalto para suceder Davi Alcolumbre (DEM-Amapá) é Arthur Lira, do PP de Alagoas.