Em meio às discussões sobre a prioridade da vacinação no Brasil, especialistas explicam as possíveis contraindicações aos imunizantes.

Prestes a completar os primeiros 30 dias de funcionamento do Plano Nacional de Imunização (PNI) contra a Covid-19, mais de 4,5 milhões de brasileiros já receberam ao menos a primeira dose de vacinas contra a doença, o que representa, ao todo, pouco mais de 2% da população brasileira. Por isso, considerando a persistente alta de casos, internações e óbitos pelo coronavírus, estados como São Paulo antecipam a vacinação dos grupos prioritários e buscam impulsionar a imunização em massa. No entanto, nesse contexto, uma dúvida ainda persiste: quem não pode ser vacinado contra a Covid-19? Autoridades de saúde, farmacêuticas e a própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já sinalizaram que menores de 18 anos e gestantes não devem receber os imunizantes, já que os estudos clínicos, que basearam a aprovação do uso emergencial dos compostos, não incluíram representantes dessas populações. Paralelo a isso, pacientes com doenças autoimunes ou em tratamento oncológico também são indicados a procurar uma orientação médica antes da vacinação, o que reforça a dúvida. Há, por exemplo, restrições para pessoas alérgicas ou lactantes? Pensando nisso, a Jovem Pan conversou com especialistas em infectologia e imunização para entender possíveis contraindicações aos imunizantes. Confira abaixo as recomendações.

Alérgicos

As principais dúvidas relacionadas à imunização abordam possíveis reações alérgicas causadas pelas vacinas, assim como restrições para pessoas que possuem histórico de alergias a remédios ou alimentos que podem fazer parte da composição dos imunizantes. Embora o receio seja válido, até o momento não há qualquer registro de reações adversas graves aos atuais fármacos contra a Covid-19 disponíveis no país, explica a diretora da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, Dra. Ekaterini Simões Goudouris. “Nenhuma dessas vacinas tem relato de ter nenhum alimento, então as pessoas com alergias a alimentos, como o ovo, em princípio não terão problemas. Quando você se vacina, pode ter reação alérgica, mas não houve um alerta em relação à CoronaVac ou à vacina de Oxford, apenas em relação à vacina da Pfizer [não disponível no Brasil]”, explica.

A recomendação do Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), responsáveis pelas vacinas atualmente distribuídas nos municípios brasileiros, é de que apenas pessoas com histórico de alergia aos produtos que compõem a vacina não tomem os imunizantes. Segundo a bula da CoronaVac, são sinalizados como itens de composição do imunizante: hidróxido de alumínio, hidrogenofosfato dissódico, di-hidrogenofosfato de sódio, cloreto de sódio e hidróxido de sódio. Da vacina de Oxford, produzida em conjunto com a farmacêutica AstraZeneca, os componentes são: cloridrato de L-histidina monoidratado, cloreto de magnésio hexaidratado, polissorbato 80, etanol, sacarose, cloreto de sódio e edetato dissódico di-hidratado (EDTA). No entanto, Ekaterini Simões Goudouris indica que, até nesses casos, as pessoas devem procurar uma orientação médica.

“A recomendação é que as pessoas que tiverem um quadro de alergia mais significativo conversem com um médico antes de tomar a vacina. Alguns pacientes podem receber orientação de aplicar em um ambiente mais controlado, então ficar meia hora aguardando, o que está um pouco complicado agora nesse cenário. Mas pode ser que chegue nesse ponto de indicar a vacinação para algumas pessoas em um ambiente controlado e não contraindicar a vacina completamente”, disse. A recomendação vale, inclusive, para uma futura vacinação com o imunizante da Pfizer no Brasil, que teve o registro reações adversas graves logo nos primeiros dias de aplicação no Reino Unido. A infectologista indica que a decisão pela não aplicação do imunizante deve ser baseada em uma orientação profissional específica para cada indivíduo.

Doenças autoimunes e pacientes oncológicos

Além das discussões sobre possíveis reações alérgicas, outro ponto de debate é a vacinação de pessoas com doenças autoimunes ou que estejam em tratamento oncológico. O motivo do receio é a ineficácia da imunização, já que o paciente apresenta uma condição de saúde ou passa por um tratamento que dificulta a resposta do sistema imunológico. “Se o paciente está no meio de uma quimioterapia, que baixa a resistência, provavelmente vai baixar a resposta à vacinação. Então a gente pode, eventualmente, decidir vacinar no melhor momento alguém que tenha doença autoimune, que tenha um câncer ou está em tratamento com remédios que baixam a imunidade, para que a vacina tenha o seu melhor efeito. Não é uma contraindicação de vacinação, é uma decisão de encontrar o melhor momento”, explica Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações.

Da mesma forma, Ekaterini também defende a possibilidade de vacinação destes pacientes e lembra que a recomendação é sempre discutir a situação com o médico responsável. Segundo ela, não existe qualquer possibilidade das vacinas feitas com o coronavírus atenuado, como a CoronaVac, por exemplo, transmitirem a doença. Por isso, não há uma contraindicação. “A grande preocupação são com as vacinas produzidas com vírus ou bactérias atenuados, porque eles podem virar agentes infecciosos, o que não é o caso dessas vacinas [contra a Covid-19]. Mas pessoas que estão em tratamento de câncer, fazendo medicações pesadas ou pacientes com defeitos de imunidade podem não responder bem à imunização. Então, para esses pacientes, é fundamental manter as medidas de isolamento e que as pessoas em volta sejam vacinadas para, justamente, proteger aqueles que talvez não respondam bem à vacina”, recomenda.

Grávidas e lactantes

Há também uma discussão sobre a vacinação de grávidas que fazem parte dos grupos prioritários do plano de imunização, o que pode incluir gestantes que são profissionais da saúde ou que fazem parte de comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Embora o Ministério da Saúde tenha contraindicado a aplicação dos compostos para estas mulheres, o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, sinaliza que cabe uma discussão individual sobre as vantagens e desvantagens da imunização. Segundo ele, o posicionamento do governo federal acontece por uma falta de estudos que envolvam grávidas, não sendo, necessariamente, uma contraindicação. “A gente sabe que a gestação aumenta o risco de Covid grave e, se ela pertence ao grupo de risco, essa decisão deve ser compartilhada com o seu médico e a família. Provavelmente são vacinas que não vão trazer nenhum risco, são vacinas inativadas como as que estamos acostumados a usar em grávidas, mas não tem nenhum estudo. O ministério acabou deixando como contraindicação, ficou em cima do muro nesse sentido de não se posicionar. Mas é uma posição unânime. Não é contraindicado, mas vacinar de maneira rotineira sem dizer para a gestante que não foi estudado também não é adequado”, disse o profissional, que defende a imunização de grávidas que estejam atuando no combate à Covid-19. “Uma gestante que está envolvida na linha de frente, que tem o risco aumentado, você tem que considerar muito mais a vacinação do que uma gestante que está em casa, sem risco nenhum. O risco é diferente de quem é profissional da saúde e está dando banho em pacientes com a Covid-19.”

Renato Kfouri também reforça que não há qualquer restrição para a imunização de lactantes. De acordo com ele, o posicionamento das entidades de saúde é o de incentivar a vacinação destas mulheres, alertando que não é necessário interromper a amamentação ou que exista qualquer risco das vacinas inativadas “passarem pelo leite materno” e causarem algum malefício para o bebê. “A gente é mais enfático em dizer que deve ser vacinada, no sentido de recomendar, desde que seja do grupo de risco. Se ela é do grupo de risco e está sendo convocada para vacinar, deve ser imunizada e não interromper a amamentação”, afirmou. Assim, a recomendação é a de que grávidas procurem orientação médica para decidir ou não pela vacinação e lactantes recebam a proteção contra o coronavírus.

Menores de 18 anos

Da mesma forma que grávidas não foram incluídas nos estudos clínicos para o desenvolvimento das vacinas, crianças e adolescentes também não fizeram parte dos grupos testados. Por isso, o atual posicionamento é o de que menores de 18 anos não serão vacinados no Brasil até que novas etapas de pesquisa comprovem a segurança e eficácia dos compostos para essa população. “Tem alguns grupos em que a vacina ainda não foi estudada, no caso das crianças, adolescentes menores de 18 anos e gestantes, mas não chega a ser uma contraindicação. Contraindicação a gente diz mais que é proibido, isso é uma precaução. Na verdade, a gente não está administrando por falta de dados”, diz Renato Kfouri. Segundo ele, alguns laboratórios já iniciaram as novas etapas dos testes clínicos, que devem incluir, até mesmo, bebês com menos de dois anos.

Até o momento, não há qualquer previsão para que menores de 18 anos sejam incluídos na fila de imunização do Brasil, o que deve acontecer apenas quando todo o restante da população estiver vacinada. No entanto, outros países já adotam a imunização de adolescentes, como é o caso de Israel, que iniciou a aplicação voluntária do imunizante contra a Covid-19 em jovens de 16 a 18 anos. Para receber as duas doses do composto da Pfizer-BioNTech, no entanto, é necessário autorização dos responsáveis. O objetivo da vacinação antecipada desta faixa etária é garantir a retomada segura das aulas presenciais no país.

Fonte: JP Noticias