Especialistas em vacinas afirmam que elas funcionam, mas precisam de atualizações para manter alta proteção contra variantes emergentes.

Apesar de ainda fornecerem boa resposta contra hospitalizações e mortes provocadas pela Covid-19, estudos mostram que os níveis de eficácia das vacinas contra casos leves, infecção e transmissão do coronavírus são menores contra a variante Ômicron, dominante em todo o mundo.

Pouco mais de um ano após o lançamento do primeiro imunizante contra a Covid-19 no mundo, as principais farmacêuticas correm contra o tempo para desenvolver novas versões capazes de oferecer proteção robusta contra as mutações que continuam aparecendo.

“Precisamos de atualizações das vacinas porque prevenir formas leves da doença também é muito importante. Elas impactam demais o sistema de saúde. Estamos vendo, com a Ômicron, como essa onda de casos leves é prejudicial”, afirma o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri.

Recentemente, o Grupo Técnico Consultivo sobre Composição de Vacinas Covid-19 (TAG-CO-VAC), da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgou um documento no qual sugere o desenvolvimento de novas vacinas com alto impacto na prevenção de infecção e transmissão do coronavírus, de doenças graves e morte.

“Até que essas vacinas estejam disponíveis e à medida que o vírus Sars-CoV-2 evolui, a composição dos imunizantes atuais pode precisar ser atualizada para garantir que eles continuem a fornecer os níveis de proteção recomendados pela OMS”, escreveram os cientistas.

Por que as vacinas atuais são menos eficazes?

As vacinas atuais foram desenvolvidas com base nas características do vírus original da Covid-19, encontrado pela primeira vez em Wuhan, na China, no fim de 2019. Desde então, o vírus passou por incontáveis mutações, resultando em novas variantes.
Cinco delas são consideradas de preocupação pela OMS devido ao seu impacto na transmissão, gravidade da doença ou capacidade de escape imune: a Alpha, Beta, Gama, Delta e, mais recentemente, a Ômicron. As principais mutações estão localizadas na proteína spike, que liga o vírus às células para que ocorra a infecção.

“Estamos produzindo [com as vacinas] anticorpos e resposta celular para uma proteína que não é totalmente igual à variante que está infectando. Por isso, as empresas estão se preparando para substituir o vírus usado na fabricação pela cepa Ômicron”, explica a professora Anamélia Lorenzetti Bocca, do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em vacinas.

Qual é a solução?

Ainda não há um consenso sobre qual é a melhor estratégia para o futuro das vacinas contra a Covid-19. Os cientistas do TAG-CO-VAC, da OMS, sugerem três opções:
– Vacinas multivalentes: fabricadas com mais de uma variante de coronavírus, elas podem ser bivalentes, trivalentes e tetravalentes, por exemplo. A estratégia é a mesma usada na vacina da gripe, em que o imunizante distribuído inclui o vírus de maior circulação no inverno do ano anterior, garantindo mais proteção.

Você precisa ter o último vírus de maior incidência para poder colocar na vacina. A substituição pela Ômicron será um ganho de resposta”, afirma Bocca.

– Vacina monovalente: atualização das vacinas com uma versão que contemple as mutações e esteja mais próxima do vírus atual, já que as mutações são acumulativas. Esse tipo de modelo é desafiador devido ao rápido surgimento de variantes do Sars-CoV-2 e do tempo necessário para desenvolver uma vacina modificada, segundo a OMS.
– Vacina universal (pan Sars-CoV-2): um imunizante que estimula a proteção para qualquer variante que exista ou venha a existir. Kfouri avalia esta como a opção ideal, mas diz que o desenvolvimento de imunizantes ainda está “longe disso”.

Como estão os estudos?

O CEO da Pfizer, Albert Bourla, afirmou recentemente que uma nova versão da vacina contra a Covid-19, eficaz contra a Ômicron, estará pronta em março. “A esperança é que consigamos algo que tenha uma proteção muito, muito melhor, principalmente contra infecções. A proteção contra as internações e doenças graves é satisfatória com a vacina atual, desde que você receba a terceira dose”, disse Bourla à rede CNBC.
A Sinovac, parceira do Instituto Butantan, trabalha desde dezembro na atualização da Coronavac para combater a Ômicron. De acordo com a farmacêutica chinesa, cientistas têm se dedicado a isolar o vírus, partindo de amostras de pacientes de Hong Kong, para poder iniciar os testes de anticorpos neutralizantes. Em seguida, será feito ensaio clínico para examinar a eficácia do imunizante. A previsão é que todo esse processo leve pelo menos três meses.
em dezembro“A mutação é bastante instável no momento e ainda estamos trabalhando na neutralização cruzada da atividade causada pelo coronavírus”, informou a vice-presidente e líder de pesquisa e desenvolvimento, Yallling Hu. A Universidade de Oxford e a AstraZeneca também começaram a trabalhar em numa vacina específica contra a Ômicron.

Vale a pena fazer vacinas com variantes que não são mais dominantes?

Estima-se que a curva epidemiológica da Ômicron tenha duração entre 30 e 60 dias. A província de Gauteng, na África do Sul, foi o primeiro epicentro da variante e já vive a queda da curva de novos casos, hospitalizações e mortes provocadas pela nova cepa.
Com essa perspectiva, Julio Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz,  avalia que o Brasil sentirá a mesma redução de casos entre o fim de fevereiro e o início de março. Nesse caso, valeria a pena produzir uma vacina com a variante Ômicron? A professora do Departamento de Biologia Celular da UnB afirma que sim.
“A menos que o vírus tenha um boom muito grande, ele não deve ter uma mutação expressiva daqui para frente. Talvez essas mutações que tornaram a Ômicron tão grave por se espalhar rapidamente permaneçam, porque dão uma capacidade de sobrevivência maior para o vírus”, explica Bocca.
“Mesmo que você tenha no ano que vem uma nova variante, grande parte das mutações vão continuar. A vacina nova deve aguentar por um bom tempo, como a atual aguentou até agora”, acredita a professora.

O que fazer com as doses prontas?

Enquanto as versões atualizadas das vacinas são desenvolvidas em laboratórios, milhões de doses das versões já aprovadas pelas agências regulatórias são fabricadas diariamente.
De acordo com o diretor da SBIm, mesmo que novas vacinas sejam aprovadas amanhã, elas não estarão em quantidade suficiente para imunizar toda a população. A migração será lenta e gradual. “Deve-se começar utilizando a nova geração nos mais vulneráveis, como fizemos no começo. Enquanto isso, as populações que respondem melhor aos imunizantes devem usar os já disponíveis”, explica Kfouri.

Vacinas atualizadas podem acabar com a pandemia?

Os especialistas acham improvável que as novas vacinas possam levar ao fim da pandemia. A professora da UnB acredita que elas podem, no entanto, fazer com que a infecção fique em um nível semelhante ao de uma gripe. Além disso, é possível que as doses de reforço passem a ser aplicadas em intervalos maiores.

“Você vacinaria somente as pessoas mais suscetíveis, assim como foi com a H1N1. Hoje, nós temos a vacinação específica para alguns grupos. A gente pode reduzir a circulação do vírus com essas novas estratégias e passar a vacinar somente os grupos de risco”, explica Bocca.

Fonte: Metrópoles