Professor da UFRJ que presta consultoria ao Consórcio Nordeste defende segurança da vacina russa Sputnik V.

Bahia, Maranhão, Sergipe, Ceará, Pernambuco e Piauí – seis estados do chamado Consórcio Nordeste – em breve vão incorporar a vacina russa Sputnik V em suas campanhas de vacinação após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar em caráter excepcional a importação do imunizante.

No entanto, a autorização concedida na última sexta-feira (5/6) veio acompanhada de uma série de restrições. O público-alvo dos imunizantes foi limitado a 1% da população de cada estado, o que corresponde, em um primeiro momento, à aplicação de cerca de 900 mil doses. Além disso, a princípio, o imunizante deve se destinar a pessoas entre 18 e 60 anos que não têm comorbidades. Também não deve ser administrado em gestantes, puérperas e lactantes.

“Eles foram corretos, tomaram uma decisão madura, que abre um canal de negociação, precisamos de mais doses e mais rapidez na vacinação”, afirma Amilcar Tanuri, diretor do Laboratório de Virologia da UFRJ e consultor científico do Consórcio Nordeste. “Não é o momento de escolher vacina, mas de aumentar o número de doses para vacinar o máximo de pessoas possível”, afirma.

O virologista explica que a Sputnik V utiliza tecnologia semelhante à das vacinas da Janssen e da Oxford/AstraZeneca, portanto, são esperados possíveis efeitos correlatos, como dor no braço e febre. Ele acredita que, pelo que foi observado nas campanhas de imunização com a vacina na Argentina e no México, não são esperados eventos adversos sérios. “Não vejo com preocupação a segurança dessa vacina”, completa.

O cientista argumenta que, para além dos imunizantes contra o vírus Sars-CoV-2, a prática de utilizar adenovírus na formulação de vacinas é comum. “Temos mais de 250 testes clínicos que atestam a segurança do uso de vetor viral inativado.” Tanuri lembra ainda que a vacina russa teve os testes de fase 3 publicados na revista científica The Lancet. A eficácia do imunizante foi de 91,6% em regime de duas doses, de acordo com o estudo.

O especialista ressalta que um dos entraves para a aprovação na Anvisa foi a farmacopeia – conjunto de informações técnicas que retratam a nomenclatura das substâncias, dos medicamentos básicos, requisitos de qualidade, insumos, compostos e equipamentos farmacêuticos. Segundo ele a farmacopeia russa é diferente da americana, à qual a agência reguladora brasileira está mais acostumada.

Vigilância farmacológica

Outro critério estabelecido pela diretoria da Anvisa para o uso da vacina russa foi a exclusiva imunização em clínicas e centros de referência, além da farmacovigilância, que compreende a criação de um sistema de detecção e notificação de problemas ligados a reações adversas. Tantos procedimentos poderiam configurar uma espécie de estudo de fase 4, que, geralmente, é conduzido e financiado por farmacêuticas.

Tanuri avalia que é necessário considerar o contexto da pandemia para não inviabilizar a imunização. “O que pode ser feito, a exemplo de Serrana (SP), é uma avaliação de eficácia do tipo ecológica, em que se mede a incidência da doença na população antes e depois da vacinação.”

Resistência à vacina

Com a chegada da Sputnik V, pode haver, por parte da população, receio em relação ao imunizante, como ocorreu com a vacina Oxford/AstraZeneca após casos de coágulos sanguíneos terem sido noticiados.

O consultor científico do Consórcio Nordeste sai em defesa da vacina russa. “Existe uma guerra de informação versus desinformação e a população sai perdendo. Agora não é o momento de escolher vacina, mas de imunizar o máximo de pessoas.” Ele avalia ainda que o Ministério da Saúde se “abdicou de ter uma liderança sobre as informações ligadas às vacinas e mesmo as medidas de prevenção”.

O pesquisador ressalta que o mais importante é ter a maioria da população brasileira vacinada, independentemente de qual seja a vacina. “Podemos deixar para escolher no ano que vem, quando, provavelmente, teremos que nos vacinar novamente contra o coronavírus.”

Fonte: Metrópoles