Dois laudos virtuais inéditos constam em denúncias: uma contra 13 PMs, em ação com 9 mortos, e outra pela morte do menino João Pedro.

Rio de Janeiro – Policiais com fuzis em punho, paredes cravadas de balas, sangue e corpos. Os detalhes da cena de um crime real remontados em um ambiente virtual. Tudo com direito a interação dos investigadores, como em um videogame, junto de poder de análise de informações de laudos e depoimento dos envolvidos.

Há dois laudos virtuais do tipo produzidos pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. O primeiro mostra a ação de PMs em uma residência durante operação na comunidade Fallet-Fogueteiro, no bairro do Catumbi, zona central do Rio, em 8/2/2019.

Nove suspeitos de envolvimentos com o tráfico de drogas acabaram mortos. Treze militares foram denunciados à Justiça por terem alterado o local do crime com a remoção dos cadáveres. Para refazer a cena, um scanner captou 2.400 fotografias. A investigação sobre os nove mortos acabou arquivada sob o argumento de legítima defesa dos agentes.

Outra reprodução virtual de crime foi feita com base na morte do garoto João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, em ação no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana, em maio do ano passado.

O Ministério Público sustenta na denúncia à Justiça – contra os agentes Mauro José Gonçalves, Maxwell Gomes Pereira e Fernando Brito – que houve homicídio duplamente qualificado e fraude processual, por alterarem o local do ocorrido. A tecnologia permitiu derrubar a versão dos policiais de que existiu confronto com bandidos.

O laudo virtual reproduz o cenário do assassinato, com as marcas de balas e ambiente da casa.

A morte do jovem fez com que o ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin restringisse as ações policiais durante o período da pandemia. A Corte ainda não bateu o martelo sobre a questão.

Tecnologia única no país

Com o uso da nova tecnologia, única no país, técnicos do Ministério Público apostam que revolucionarão o conceito de investigação no estado. Para isso, o órgão investiu R$ 1 milhão na compra de dois scanners capazes de tirar fotos e medidas com precisão, em um ângulo de 360 graus, em apenas sete minutos.

Os dados são armazenados em um software, onde é feita a montagem do cenário do crime em um ambiente virtual. A visualização das imagens com interação do espectador se dá por meio de óculos 3D. O material também pode ser exibido na tela de computador, telões, celular e tablet.

“Imagine uma rebelião em um presídio. É possível escanear os envolvidos, o local e os objetos. Cada marca de bala é precisamente colocada no lugar. Fazemos a remontagem com a interação de quem está apurando o caso”, explica a diretora da Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia, Maria do Carmo Gargaglione.

Para adquirir os equipamentos de uma empresa americana, sediada na América Latina, Maria do Carmo e sua equipe começaram a estudar a tecnologia em 2019. Foi neste ano que ela participou de um congresso sobre a novidade forense nos Estados Unidos.
“Depois de mais de um ano de pesquisas, testes e treinamentos, o resultado se adequa ao que o processo penal busca: identificar a verdade. Juiz, promotor, jurados e advogados, com os óculos 3D, vão ver o laudo virtual disponibilizado em link”, explica o chefe da Coordenadoria de Segurança e Inteligência, o promotor Eduardo Campos.

Fonte: Metrópoles