A prefeitura de Tefé recebeu nos últimos três anos e 10 meses mais de R$ 740 milhões oriundos dos repasses constitucionais (repassados pela União), como Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), Fundo Nacional de Saúde, Fundo de Participação dos Municípios (FPM), além dos royalties da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

Isso sem contar os valores recebidos em emendas parlamentares, convênios com o governo do Estado e do Fundo de Fomento ao Turismo e Interiorização (FTI).

Entretanto, moradores do município reclamam da falta de medicamentos, infraestrutura e, principalmente, compromisso por parte do atual prefeito de Tefé, Normando Bessa, que chegou a declarar que os recursos destinados ao Covid-19 estão guardados, enquanto pessoas morrem por falta, por exemplo, de oxigênio.

Atual prefeito de Tefé é candidato a reeleição Normando Bessa

Saúde

Nos últimos quatro anos, Tefé recebeu R$ 98,5 milhões para serem investidos exclusivamente na saúde. Os recursos caem diretamente na conta da prefeitura e são provenientes de repasses da União, governo do Estado e de emendas parlamentares de deputados federais, estaduais e senadores.

Só no ano de 2020, entre os meses de janeiro a outubro, a prefeitura de Tefé recebeu R$ 30,1 milhões que deveriam ser usados no atendimento de pessoas doentes, reforma de hospitais e centros de saúde, compra de medicamentos e pagamento de médicos e enfermeiros.

A atenção básica à saúde, cuja responsabilidade é do município, recebeu do governo Federal cerca de R$ 48 milhões entre os anos de 2017 a 2020. Somente neste ano, até o mês de outubro, a prefeitura recebeu quase R$ 12 milhões para investimentos na saúde básica.

Outro setor que recebeu recursos foi o de atenção de média e de alta complexidade hospitalar. Nos últimos quatro anos foram liberados para a prefeitura de Tefé cerca de R$ 29,9 milhões para investir na média e alta complexidade.

Em outras cidades, o serviço abrange atendimentos de oncologia (tratamento de câncer), ortopedia, cuidados especiais à mulher, tratamento de doenças sexualmente transmissíveis e serviços odontológicos.

Pandemia

Um dos períodos mais assombrosos para a população de Tefé tem sido a pandemia do coronavírus. De acordo com documentos, vídeos e depoimentos apresentados ao Portal A Repórter, o atual prefeito declarou contratos milionários que foram publicados no diário oficial, mas que na prática, não teriam atendido a população. Entenda:

No dia 19 de março o prefeito de Tefé, Normando Bessa, decretou calamidade e criou um comitê de enfrentamento ao Covid-19.

Cinco dias depois, o prefeito anunciou a compra de R$ 3 milhões em medicamentos através de uma publicação em suas redes sociais, o que por um momento teria confortado a população.

Por meio de depoimentos coletados no município, moradores denunciaram a falta de medicamentos essenciais, assim como a falta de oxigênio e até mesmo a falta de testes para detectar os anticorpos do vírus que causa doença. A falta de prevenção levou ao total de 81 mortes durante o pico da pandemia.

“Eu estava quase morrendo e disseram que não tinha teste para o coronavírus, mas que eu poderia fazer um raio-x do meu pulmão para ver se estava comprometido”, relatou um paciente em idade de risco.

“Fui ao hospital e, após tirar o raio-x, pedi para levar o exame, mas fui informado que eles não imprimiriam os exames. Quem quisesse e tivesse um smartphone poderia tirar uma foto da tela do computador, mas eu não tinha. Então voltei para casa quase morrendo, pois também não me deram nenhum medicamento. Graças a Deus, depois de uns seis dias, minha febre começou a passar e eu sobrevivi”, relatou um homem que não quis ter sua identidade revelada por medo de represálias.

Ele informou também que a justificativa para não entregarem o exame impresso seria o valor das caixas com a folha apropriada de impressão, que custa em torno de R$ 4 mil, e o município não teria recursos para tal investimento.

Esse foi um entre tantos depoimentos que acusam a falta de itens essenciais para combater a pandemia do coronavírus.

A família de um dos pacientes que veio a óbito por Covid-19, disse que no hospital só havia um ventilador pulmonar e nenhum respirador, e que os pacientes com a doença não tinham um local específico para serem tratados, levando mais contaminação a outros enfermos com outras patologias.

Essa mesma família sofreu duas vezes. Primeiro por perder um ente querido durante a pandemia, e depois por não conseguir enterrá-lo no jazigo da família, pois o prefeito proibiu o sepultamento no cemitério da cidade, e com recurso em torno de R$ 3 milhões, fez um cemitério sem nenhuma estrutura, como podemos ver nas imagens:

Fachada do cemitério que custou R$ 3 milhões de reais
Sepulturas

A população se revoltou com o decreto de Normando Bessa, que proibiu o uso das sepulturas que já eram de propriedade das famílias. Por isso, muitos tiveram que recorrer à justiça para ter garantido o direito de enterrar seus entes queridos nos jazigos.

O número de reclamações e denúncias sobre a falta de remédios chamou atenção dos vereadores da Câmara Municipal de Tefé, que no dia 26 de abril de 2020, um mês após o prefeito anunciar um investimento milionário em medicamentos, solicitaram informações sobre essa compra.

No total, foram enviados três ofícios à prefeitura, sem que nenhum documento fosse respondido, além de um quarto oficio requisitório, ambos sem nenhum sucesso.

A falta de informações por parte da prefeitura levou a Câmara de Municipal de Tefé a criar a CPI da Saúde, instalada dia 02 de outubro de 2020, mas que até o momento está paralisada.

A presidência da comissão ficou nas mãos do vereador Daniel Barbosa da Silva (PP), o que de acordo com os vereadores da oposição, estaria atrasando o andamento das investigações, pois Daniel faz parte da base de apoio ao prefeito.

Vale ressaltar que Normando Bessa anunciou a compra de medicamentos no dia 24 de maio, mas só no dia 22 de julho, e depois de muitas denúncias, houve a dispensa de licitação para a compra de medicamentos, que até hoje não suprem a necessidade do município.

Um vídeo que viralizou na cidade mostra a candidata Norma questionando o que o prefeito teria feito com os recursos destinados ao combate do coronavírus, uma vez que faltavam itens essenciais no município. Ele respondeu que o dinheiro está guardado.

Outra aquisição que chamou atenção foi a declaração da compra de R$ 3 milhões em caixões para serem usados durante a pandemia, em uma cidade que na época teve 81 mortes.

Se fosse dividir o valor para a real quantidade de caixões utilizados, cada caixão teria custado mais de R$ 37 mil.

O prefeito é famoso por compras milionárias em torno de R$ 3 milhões, pois também declarou a compra de R$ 3 milhões em fogos de artifícios durante o período da pandemia.

Para a castração de cachorros de ruas, Normando Bessa declarou nada mais nada menos que R$ 2 milhões no diário oficial.

Normando Bessa busca a reeleição, e população denuncia que durante o período eleitoral ele estaria usando imagens de obras terminadas que foram iniciadas em outras gestões, e que inclusive deixaram recursos milionários no caixa da prefeitura.

Durante os quatro anos de mandato, Normando não teria apresentado nenhum projeto de sua autoria, e conta como seu maior mérito a feira da cidade, que de acordo com um levantamento, já estava com obras avançadas quando ele assumiu, e com recursos em caixa acima de R$ 5 milhões solicitados pelo prefeito anterior.

De acordo com moradores, o prefeito estaria reunindo seus eleitores e mostrando imagens de mais de cinco anos atrás e imagens atuais de obras que eram inacabadas como a feira municipal, a praça de alimentação e a UBS, e atribui os méritos à gestão dele, que não teria criado e nem buscado os recursos para a conclusão das obras.

Educação pública deficitária, falta de infraestrutura escolar e professores com salários reduzidos são outros assuntos criticados pela população de Tefé. A cidade ganha milhões de reais em royalties pela exploração do petróleo, porém possui centenas de ruas esburacadas ou sem asfalto, assim como creches e escolas inacabadas.

A foto da capa mostra as condições de alguns dos bairros ignorados pela prefeitura