Uma história de sobrevivência, superação e persistência de uma família de 11 membros que começou com a expulsão de seu povo da comunidade São Francisco de Guayo, na Venezuela, e hoje mora em Manaus, tem como protagonista a matriarca artesã Otília Malalu, que foi convidada pelos artistas indígenas de Manaus a expor suas obras na 1ª Mostra de Arte Indígena de Manaus – “Nosso Povo”, que está sendo realizada até 29/10, na galeria do Palácio Rio Branco, praça Dom Pedro II, centro histórico.

A mostra é realizada pela Prefeitura de Manaus, por meio do Conselho Municipal de Cultura (Concultura) e apoio da Fundação Municipal de Cultura e Turismo (Manauscult), e reúne nove artistas indígenas das etnias kokama, dessana, tukano, mura e tikuna de comunidades residentes em Manaus. Além da exposição com as obras de cada artista, uma websérie com minidocumentário conta as histórias dos artistas, com direção do produtor Walter Santos.

“Estamos exibindo pela primeira vez à sociedade manauara e como atrativo ao turismo, nessa reabertura gradual, a arte produzida pelos povos originais em um local histórico, território sagrado dos indígenas e símbolo do poder de nossa história”, disse o presidente do Concultura, Tenório Telles, idealizador da mostra. Ele justifica que o interesse dos turistas, além do patrimônio histórico, é a cultura indígena da ancestralidade. “A solidariedade dos indígenas locais com o povo Waraó da Venezuela é mais um traço da cultura indígena”, destacou.

A artesã Waraó Otília Malalu, 62, chegou a Manaus pouco antes da pandemia de Covid 19, em 2019, e passou a fazer parte das estatísticas da migração junto com os 11 membros de sua família, e mais dezenas de indígenas de nove famílias que vieram juntos ganhar a vida.

“Busquei em nossa cultura a inspiração para criar as peças de artesanato como redes, bolsas, cestarias, roupas, mas com a chegada da pandemia não pudemos sair às ruas”, contou Malalu.

Ela conta que teve pouco tempo para vender suas peças, e como não conseguiu comercializar, deixou-as em casa e pensava em desistir e jogar fora tudo por conta das dificuldades. Foi quando surgiu o convite para participar da exposição indígena e de colocar à venda seus produtos no Centro de Medicina e Artesanato Indígena de Manaus, na rua Bernardo Ramos, Centro.

O conjunto de trançado Waraó é feito com fibra de buriti, um vaso, um cesto, um paneiro e três suportes de pratos em palha clara com leves pontos de cor, com design simples. “Mas, traz consigo a luta de um povo pela sobrevivência identitária, de uma tradição passada de mãe para filha”, avalia a produtora da exposição Monik Ventilari.

Resgate

O convite foi feito pelo curador da mostra indígena, o antropólogo João Paulo Barreto Tukano, que soube do caso da artesã Waraó e articulou a sua participação na exposição artística como forma de incluir os indígenas venezuelanos que se encontram em situação de rua, longe de suas origens culturais e ancestrais.

“Os waraós estão fora de seus territórios e como indígenas estão sujeitos à discriminação, a preconceitos e até vulneráveis a sedução de facções criminosas”, explicou Barreto. Ele disse que a intenção do convite é provocar o resgate da autoestima dos migrantes indígenas para que se sintam parte dos indígenas locais, não como forasteiros mas, sim, como parte da sociedade manauara.

“Quando nós indígenas estamos fora de nossos territórios sentimos que falta uma parte de nosso corpo, nos sentimos incompletos, impotentes e nossa autoestima é baixíssima. Tudo é estranho e perigoso, e essa falta, esse vazio é preenchido quando nos juntamos, compartilhamos nossas lutas, trabalhos e alegrias”, salientou.

Ele afirma que a 1ª Mostra de Arte Indígena de Manaus – Meu Povo é uma oportunidade de quebrar barreiras, vencer os preconceitos e abrir novos caminhos.

Dados

Segundo dados da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) sobre a migração indígena da Venezuela desde 2016, em fevereiro de 2017 havia a presença de 117 indígenas eml Manaus, sendo 35 em situação de rua próximo à rodoviária; 43 em casas na zona Sul e 39 em hotéis precários no Centro. Foram registrados mais de 300 e o número passou de 500 no mês seguinte, chegando a 730 em outubro de 2019.

Dados do Serviço de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias do Coroado de 25 de janeiro de 2018 mostram que, entre os 551 waraos atendidos em Manaus, 319 retornaram à Venezuela, sendo mais da metade. Outra parte significativa, 175, foi para o Pará. Já o número dos que permanecem na cidade é de aproximadamente 139.

Fotos – Walter Barbosa / Assessoria Concultura